quarta-feira, 20 de abril de 2011

“Eu sou normal” (Francisco Milani)

Negar é diferente de desconhecer, é quase um “rejeitar”. Seria um “rejeitar” sem a carga negativa que a palavra traz em si.

Às vezes converso com amigos ou simplesmente pessoas, e declaro as coisas que eu desconheço em minha vida, e eles pensam que eu estou negando estas coisas ou simplesmente rejeitando, é um equívoco.

Eu não nego nem rejeito, eu simplesmente desconheço certas coisas e pessoas como sendo partes integrantes da minha vida-realidade. Pois, a partir do momento em que eu tive a consciência de que não existe uma realidade universal, passei a gerenciar o que entra, permanece e sai do meu círculo de existência - considerando-se que “existência” é um conceito extramente frágil e efêmero, pois, depende do meu pensamento e do seu poder de criar.



Sendo assim, eu sou eternamente livre para conhecer e/ou desconhecer coisas, pessoas e fatos que irão ou não constituir o que eu chamo de realidade.

Trata-se de escolha. Você escolhe o que irá compor o seu quadro. Por isso quando olho para uma fila enorme de um banco, penso: “não vou ficar nesta fila”. E diante deste comportamento muitos me dizem: “você se acha melhor do que os que estão na fila?” De maneira alguma! Estou apenas dando uma finalidade distinta aquele momento, tanta coisa importante a se fazer do que ficar em uma fila, até mesmo o ócio pode vir a ser mais interessante do que ficar naquela fila; pode ao final, acabar sendo mais produtivo do que pagar uma conta em dia. Amanhã devo pagar o que? 0,23% de juros? Perfeito! Mais do que justo por um tempo valioso e que – como todos sabem – não volta mais.



Tenho um problema pessoal com filas, desde o ensino primário (quando, devido ao meu tamanho, eu era sempre o último da fila). Sinto-me infantilizado quando sou obrigado a pegar uma fila. Acho que ficar em fila é coisa de boi, de vaca, de formiga, sei lá. Fico impressionado com uma fila de formigas, passo horas observando aquilo. Elas são livres, elas podem ir para a esquerda, para a direita, mas não, elas preferem a velha e ‘boa’ fila.



Mas veja bem, eu não rejeito a fila enquanto instituição global, eu compreendo a função social que uma fila tem. Nem tampouco eu nego uma fila. Eu apenas a desconheço como procedimento a ser cumprido no meu dia-a-dia. É o meu poder de escolha em ação.

Uma das definições mais interessantes de ‘ser rico’ é o poder de escolha, ser rico é também ‘ser capaz de escolher’. No entanto, eu falo de escolhas firmes, fundadas, diretas e o mais importante: livres de culpa. Independentemente da questão financeira, ou seja, quanto você tem no banco ou não. Com dinheiro ou sem dinheiro você pode escolher. Obviamente que, quanto maior o seu poder aquisitivo, maior e mais confortável será o leque de opções a se escolher. Portanto, se você é capaz de escolher com autoridade e soberania, você é – também – rico.



Muitos me acham chato, estrela, ranzinza, sistemático e afins. Talvez porque eu tenha chegado a um nível de maturidade pessoal (a maturidade é relativa) que me permita conhecer e desconhecer coisas e pessoas que coadjuvarão em minha performance mundana. Eu não me importo. Porém, estou aqui esclarecendo este ponto por haver tantos por ai como eu. E também, porque depois de um tempo, torna-se extremamente desgastante ter que ficar explicando a razão das minhas escolhas.

- Ei André! Vamos no “churras” do Guga?
- Ah nem...
- MAS POR QUEEE???!!!
- Ah... Eu não gosto de churrasco.
- POR QUEEE???!!!
- Porque em um churrasco tem TUDO que eu não gosto: carne, cerveja, sol, axé etc...
- Mas EU vou estar lá, a Geovana vai estar lá com o namorado que veio de Mogi Guaçu SÓ para o churrasco, o pessoal da Neném vai estar lá, são seus amigos PÔXA! A gente vai rir e conversar e brincar e cantar e sorrir, o Tibério vai levar baralho e a gente vai jogar truco!
- Eu não sei jogar truco...
- NÃO INTERESSA!
- Então...
- Ah vaaamo André, tem piscina, tem bilhar, tem som, tem mulher, tem bebida, a gente bebe e ri!
- Eu-não-bebo-cerveja.
- LEVA o que você bebe então! Vaaamo?
- Sério, fica para uma outra vez.
- Não VAI ter outra vez assim!
- (!!!!!)
- São seus amigos, você vai decepcionar seus amigos assim? O que custa você iiir?
- Custa o meu bem-estar, por exemplo.
- Mas e o bem-estar dos SEUS amigos?!!
- Mas e o MEU bem-estar?!
- Mas você não se sente bem perto dos seus amigos?! Vamooo?
- Eu não disse isso!!!
- Mas é o que parece! Vamooo?
- Me desculpa...
- NÃO TE CHAMO PRA MAIS NADA!!!

EU sou chato?!

Teria eu negado um convite? Rejeitado a possibilidade de estar com meus amigos? Ou ainda, ter perdido a oportunidade de conhecer o namorado da Geovana?! Eu sou mau?! É óbvio que não!

Um homem de 35 anos no comando das suas faculdades mentais, jurídica e absolutamente capaz tem o direito de escolher o que ele vai fazer no domingo à tarde (no meu caso, eu gosto de vegetar, igual a um pé de avenca).



Se eu fosse um garoto de 8 anos, eu seria levado querendo ou não; se eu fosse um adolescente, eu iria para provar a mim e aos demais, que pertenço ao grupo, sou aceito e amado; se eu fosse um adulto de vinte e poucos anos eu iria com a esperança de me divertir – afinal o Tibério estava levando baralho! Se eu tivesse 20 e tantos anos eu iria para agradar e não fazer desfeita. Mas felizmente eu tenho 35 anos e desconheço o evento “churras” como parte das coisas que gosto de fazer.

Assim como desconheço o carnaval, festas juninas (“anarriê!”), bandas “alternativas” de música pop-rock-cult-lounge-bass-off-ultra contemporâneas que fazem um som low-less-non-beat-off-rythym que “estão ai para mostrarem a que vieram” (???). Também desconheço expressões que caem no gosto do que é “in”, do que é “hot” como: “old-school” ou “expertise”.



E apesar de tudo isso, eu não sou diferente de você! Posso, quem sabe, estar em uma “vibe” paralela, e isso é tudo. E podemos vibrar juntos, cada qual ao seu modo, pode ser divertido.

Sendo assim, eu não simplesmente rejeito, eu não nego, e nem resisto. Eu simplesmente aparto certas coisas que em nada me acrescentam, peço licença e vou passando com minha graciosidade usual (modéstia à parte), e claro, sempre sorrindo.

André Aggi.