A
fim de aproveitar o feriado de comemoração do aniversário de Pouso “Alegre”, acabo de chegar
de um fim de semana a passeio na pulsante - quiçá arrítmica - cidade de São
Paulo. Fiz o de sempre: observar a biodiversidade humana; comer no Ragazzo e na
casa do pão de queijo; visitar a Livraria Cultura da avenida Paulista; sair
andando sem precisar cumprimentar alguém a cada vinte metros (e assim evitar
conversas vazias a título de protocolo); evitar o óbvio e apreciar o atípico
(pelo menos pra mim que vivo em uma cidade pequena e bastante típica);
encontrar com o namorado; experimentar as quatro estações do ano em um só dia
etc.
Ocorre
que - desta vez - nas minhas várias idas e vindas pela avenida Paulista - sim,
porque eu a esgoto sempre que vou a São Paulo, e quando me canso, fujo pela Alameda Santos (a minha preferida) ou mergulho na magia da rua Augusta - notei
uma mudança impossível de não ser notada pra quem tem certa intimidade com o
lugar. Algo que certamente afetou o meu desejo e meu prazer de simplesmente passear pela nossa
Quinta Avenida.
Em cerca de dois a três
quarteirões de caminhada por esta via, você terá que enfrentar bravamente: o
Green Peace; a Unicef; uma ONG que ajuda crianças de rua (em específico); uma
ONG que ajuda moradores de rua; uma ONG que ajuda animais de rua; os
homens-estátua que dão uma apitadinha quando você passa; os panfleteiros; os homens-placa;
os homens-placa-panfleteiros; os homens com uma pastinha na mão perguntando se
você tem um minuto; os homens e mulheres vendendo suas artes, os pedintes sem
causa instituída e cada vez mais insistentes (deve ser a crise), e os Hare
Krishnas (até onde pude contabilizar).
Já
faz um tempo que tal fenômeno vem ocorrendo naquele lugar, mas diante da
frequência com a qual visito a cidade, vi um aumento brusco e significativo
desta última vez, em um nível tal que senti a necessidade de escrever a
respeito. Tentei conversar sobre o assunto com algumas pessoas, mas talvez elas
não se sintam assediadas e/ou violadas e/ou incomodadas com o “festival da
necessidade” representado por 20 minutos de caminhada naquele cartão postal.
O
mundo está carente, de quase tudo, principalmente de compreensão. Daí você pode
pensar que diante da redação deste texto, falta-me compreensão com tantas e tamanhas necessidades
alheias, ao que eu respondo: talvez, quem sabe, de um certo ponto de vista... Mas eu - também - sou um ser senciente, eu também necessito,
eu também preciso da mesma compreensão. E eu gostaria de um dia caminhar por aí,
por este país, por aquela avenida, sem ser “incomodado”, sem ser solicitado.
Apenas caminhar, com meus pensamentos, com minhas observações, com meus
julgamentos, ou sem nada disso, APENAS caminhar. A contemplação é um direito que
me cabe independentemente de qualquer necessidade alheia, já que, além de um
direito, ela também é uma necessidade. Nossas necessidades e direitos estão
sempre se esbarrando e se estranhando, e, como advogado, sei o quanto é difícil
conciliar o tudo “junto e misturado”, junto sim! Misturado, nem tanto, por
gentileza. Ou ao menos me dê o direito de escolher onde e quando eu vou me
misturar.
Egoísmo?
Ah, uma mera falácia neste caso.
O
sujeito que te chama de egoísta é aquele que quer que você pare o que você está
- deliberadamente - fazendo, para fazer algo que ele acha que você deveria
estar fazendo, na maioria das vezes: algo do interesse dele, algo que tem a ver
com ele. E agora? Vamos continuar falando de egoísmo?
Reação
cliché: “então vamos todos cuidar apenas das nossas vidas e deixar o próximo se
ferrar!” Menos, querido(a). Não estou dizendo aqui que se eu presenciar uma
senhorinha despencando do alto de sua bengala e se esborrachando no chão, eu
vou seguir reto cantando La vie em rose, não. Neste caso, o meu instinto (de
Superman) é parar imediatamente e salvar a senhorinha, até porque ela é uma
senhorinha, e eu tenho esse sentimento (não sei porquê) que senhorinhas,
senhorzinhos e crianças estão sempre em perigo.
Não
consigo vislumbrar este planeta povoado por humanos desprovidos de
necessidades, onde houver humanos elas sempre estarão lá, e eu também sempre estarei lá. Logo, eu
quero pelo menos poder olhar o cardápio e escolher. Não quero que o garçom do
“festival da necessidade” venha até minha mesa e enfie uma colher de pandas em
extinção na minha boca, e já estou bem cansado do gosto amargo do aquecimento global,
eu quero escolher, por favor! Até porque, só o meu instinto é de Superman,
pois, todos nós sabemos que ele não passa de uma adorável ficção, um mito para
toda essa nossa vontade de ajudar e/ou nossa capacidade de necessitar. Nós
necessitamos tanto, ao ponto de inventarmos super-heróis para nos salvar desta falta toda e nos salvar de nós mesmos.
El
niño, aquecimento global, guigó-da-caatinga ameaçado de extinção, terremoto,
tsunami, refugiados, fanatismo religioso decepando mais cabeças do que nunca,
guerras, corrupção, “o senhor tem um minuto?” Falta de água, falta de
saneamento básico em Guinea Bissau, “vamos ajudar hoje, senhor? Não? Podemos
entrar em contato amanhã? Não? Que dia podemos entrar em contato? ” Abuso (de
toda sorte) de menores, violência doméstica, aumento da taxa de suicídio entre
adolescentes brasileiros, aumento da taxa de atropelamento por motoristas
bêbados, “vamos assinar, senhor? Vamos conversar? Vamos doar? O senhor tem um
minuto?” Transfobia, homofobia, xenofobia, CLAUSTROFOBIA!
E
eu sou só um... Eu sou só o André.
Assim
como você, eu vim parar aqui sem orientação nenhuma, sem mapa e sem bússola. Meus
mapas eu mesmo desenho e vivo me perdendo, e minha bússola é meu bem-estar. Mas e o bem-estar? Como criar espaço para o indivíduo, para as vontades pessoais,
para os sonhos de cada um? Por que a mídia que dissemina todo esse medo é a mesma que me
vende coisas que não posso e/ou não quero ter? A mesma que tenta me convencer
de que o culpado sou EU - André. A mesma que faz com que eu me sinta culpado (e
eu me sinto) de ignorar todos os solicitantes bem e mal intencionados da
Avenida Paulista.
Está
na hora de rever o conceito e a complexidade por trás de “este é um problema
meu, seu e nosso”. Nosso: quase sempre, meu: há controvérsias, senão vejamos.
Eu, André, jamais segurei uma arma de fogo e matei um animal em extinção;
jamais tirei a comida das mãos de uma criança faminta; jamais desviei cursos de
rios para construir hidroelétricas; jamais detonei bombas atômicas; jamais
despejei sequer uma das milhares de pessoas que moram nas ruas; jamais decepei
cabeças em nome de Alá. Sou gay, logo, não sou homo ou transfóbico, sou
latino-americano, logo, não sou xenófobo. São coisas contraditórias que fariam
de mim mais um hipócrita, e o mundo está cheio deles, são - entre outros – os
que te alvejam com reações clichés: “egoísta! Quer comparar os seus
probleminhas de primeiro mundo com a fome, a sede, a violência MUNDIAL (mundial
vem sempre num tom de voz mais alto)? Seu coxinha, seu ego-centrado, seu burguês
alienado!”
“A
água está acabando, você está fazendo sua parte?”
Creio
que sim, mas você já foi perguntar ao agronegócio e à indústria pecuária se
eles estão fazendo a parte deles? Já bateu na porta de alguma fábrica de
refrigerante ou cerveja para perguntar se eles estão fazendo a parte deles?
“O
desmatamento está atingindo taxas críticas, precisamos fazer algo!”
É
certo que precisamos, mas o que? O que você está fazendo? Dá uma ideia aí.
“A
guerra (em algum lugar do oriente médio) já tirou “trocentas” mil vidas ATÉ
AGORA (vai ter mais)”.
Que
fique claro, guerras são picuinhas, devaneios dos egos de uma ou duas dúzias de
bebês mimados e crescidos vestindo ternos e tailleurs de grife. Pessoas que não
tem uma vida sexual satisfatória e que se encontram momentaneamente no comando
das maiores potências mundiais, são comumente chamados de “líderes” (não sei
porquê), e devido a algum desajuste psicoemocional PESSOAL, acordam num belo
dia e decidem declarar guerra a outro país, povo, religião etc. Aí você que
está lendo este texto (ou não) decide não se envolver de modo algum no tema
e... “Alienado! Egoísta!” Isso porque algum imbecil de pinto pequeno decidiu
declarar guerra em algum lugar. Eu hein...
“O
que você está fazendo para acabar com a miséria nacional e mundial?”
Bem...
Partindo da premissa de que a omissão é uma forma de ação, vamos lá, procuro
não declarar guerra a ninguém, evito impor minha religião a quem quer que seja
(até porque eu não tenho uma), não tenho uma corporação que busca o lucro acima
de QUALQUER coisa (humana), não escravizo chineses e/ou nenhum outro povo
asiático pagando um dólar por 18 horas de trabalho, e deixe-me ver... Não
derrubo árvores, não mato animais em extinção, não abuso de crianças, não poluo
rios e mares em busca de minério e petróleo e acho que é basicamente isso. Mas,
vem cá, você já foi perguntar ao
político que você ajudou a eleger o que ele(a) está fazendo para combater a miséria
nacional e mundial? Já foi perguntar para a Coca Cola, pra Apple, pra Nike, pra
Shell? Não, né? Não adianta, né? E mesmo assim, algo te faz vir perguntar pra
mim, André, o que EU estou fazendo. Explica-me essa sua lógica, por obséquio!
“Oh,
a bomba atômica... Vejam só do que nós somos capazes”... Hein? Oi? Eu ouvi a
palavra NÓS?! Alto lá, cara-pálida! Ninguém me consultou neste ponto, eu não
tinha sequer nascido!
“O
desmatamento é um problema nosso”...
“Ó
abre alas que eu quero passar, eu sou da lira, não posso negar”.
É isso. Tem
dias, tem horas, que tudo que eu, André, indivíduo, senciente, dotado de ego, quero
é simplesmente passar! Apenas. Cresci ouvindo meus pais dizerem que “tem hora
pra tudo”, e é fato que tem.
Ajudo
no que posso, avisei a mocinha do Green Peace na Paulista que já colaboro com
uma quantia (pequena, confesso) mensal, desligo a torneira pra escovar o dente,
ensaboar o corpo e a louça. Tento ser o mais gentil possível dentro das minhas
condições emocionais de cada dia, mas não sou Jesus (nem quero ser), não
ofereço a outra face. Omito e ajo de acordo com o meu bem-estar, ele é minha
bússola, como eu disse acima.
Ajudar
o semelhante? Sim, ele é semelhante, ele se assemelha a mim, mas ele é ele e eu
sou eu. Amar e ajudar o próximo? Claro, não é à toa que ele é o próximo, depois
de mim. Digamos que eu precise de um tratamento dentário e não esteja bem de
grana, o primeiro a sofrer diante disso será o Green Peace. Eu não acredito em
mudar o mundo a partir de um lugar de necessidade, de falta.
Li
certa vez: “Aprender a lidar com o aqui e o agora e enfrentar seus desafios
pessoais é a sua prioridade máxima, pois somente quando sua casa estiver em
ordem serás capaz de dar o melhor de si para os esforços mundanos ou
idealistas”. Li, assimilei e incorporei.
E
hoje sou capaz de declarar sem culpa ou vergonha ALGUMA, de que eu sou feliz,
realizado, saudável, entre outras conquistas; independentemente do fato de
saber que existem outras pessoas no mundo que não os são.
Dizem
que a raça humana somente sobreviverá se começar a agir como uma espécie, em
conjunto, assim como as formigas e outras espécies o fazem. Mas algo nos difere
das formigas, que bom, não? Nunca gostei de andar em fila e trabalhar só pra comer.
É
uma questão truncada, difícil de resolver. Eu não tenho a solução, e se você me
cobra é porque você também não tem. E me culpar - enquanto humano - por
Auschwitz ter existido, certamente, não é o caminho mais apropriado.
Podemos
conversar, eu posso até ter um minuto ou vários, mas às vezes eu só quero
caminhar, respirar e ser grato. E não é a sujeira, a bagunça e o barulho
criados tão somente pelos meus “semelhantes” e pelo “próximo” que vão me
impedir.
Namastê
e Hare Rama!
André Aggi


