De outro mundo
terça-feira, 14 de novembro de 2017
sábado, 28 de maio de 2016
Alô?
Não sabemos que rumo a
comunicação interpessoal – próxima e à distância - vai tomar a curto e a longo
prazo, mas será muito difícil me adaptar ao que tem se visto por aí.
Eu sou do tempo em que
as pessoas sem qualquer tipo de deficiência vocal e/ou auditiva usavam suas
vozes para se comunicar umas com as outras, mas este tipo de comunicação está
minguando.
E a principal (há
outras) figura que está assumindo o papel das cordas vocais se chama WhatsApp.
O negócio apita a todo momento, sinalizando que há ali uma(s) solicitação(s) de
comunicação. Você então abre o aplicativo, verifica quem é o interlocutor em
questão, e corresponde ao chamado. Até aí TUDO BEM, tudo ótimo! Mas de repente
você nota que não se trata de uma comunicação banal, não se trata de um: “Oi
tudo bem? Pode FALAR?” Ao que você responde: “Sim, posso.”
Não!
Minutos depois você
está participando, na verdade, de uma deliberação de assembleia, de um sermão
da montanha, de uma análise da expressão de RNAs não codificadores longos em
adenocarcinoma de pâncreas! Como se diz aqui em Minas: “Crendeuspai!”
Vejam bem, talvez o
negócio aqui seja mais uma "implicância" minha (das muitas que tenho), seja mais uma
questão pessoal. Eu tenho 1,98m de altura, logo, minhas mãos e meus dedos são
proporcionais a esta medida. É difícil para mim, é como se fosse uma prova de
gincana segurar esse aparelhinho na mão e tocar em quadradinhos individuais com
uma área de 7 por 5 MILÍMETROS cada, a fim de transmitir uma ideia! As pessoas
chamam isso de “digitar”, desculpem-me, mas “digitar” é o que você faz
apertando botões ou teclas visíveis a olho nu! ISTO é digitar. Touch Screen
está mais para um “carinho”, uma “cosquinha”. E discutir a origem do universo
fazendo cosquinha numa telinha de um aparelhinho é INSANO!
Aí vem um gênio, um
Steve Jobs ou um Bill Gates da vida e sugere:
- Tem uma solução pra
isso! Baixe um teclado com “teclas” maiores!
(Tipo: “seus problemas
acabaram!”)
Eu já tentei, mas não
melhorou muita coisa, e logo em seguida me lembrei: Mas peraí! A questão NÃO é
esta! Não é um “teclado” maior. A questão é que eu ainda consigo usar minha
voz. O próprio WhatsApp oferece a opção “mensagem de voz” e até mesmo “chamada”.
Mas não! Vamos ser impessoais? Vamos TECLAR? Teclar é legal, teclar é seguro,
teclar é privacidade, você não precisa ouvir minha voz, você não precisa saber
que estou teclando com você e fazendo outras mil coisas ao mesmo tempo, e às
vezes não estou nem aí para o que você está "falando", só estou com tédio e quero
ocupar minhas mãos.
Teclar é tendência,
teclar é “in”, é sim, INsuportável.
Falar ao telefone até
meus 20 anos de idade era artigo de luxo, era caro, muito caro, qualquer pessoa
com mais de 30 anos de idade deve se lembrar. Mas o negócio mudou! Como é do
conhecimento de todo mundo, o próprio aplicativo em questão oferece o “serviço”
de chamada de VOZ... DE GRAÇA! Hein? Vamos usar? Está certo que a qualidade da
chamada nem sempre é lá essas coisas, mas oi? É de graça!
Está valendo tudo pelo
Whats: começo de namoro, oficialização de namoro, D.R., término de namoro,
negócios, entrevista de emprego, contratação, demissão, exposição de arte, curso
de mandarim etc.
Eu me pego
constantemente na seguinte situação:
Interlocutor: Oi
Eu: Oi
Interlocutor: Bem?
Eu: Bão
Interlocutor: Vai sair
hoje?
Eu: Acho que não e
você?
Interlocutor: Eu
queria, mas tem o lance lá...
Eu: Que lance?
Interlocutor: [TEXTÃO]
Eu: Hum...
Interlocutor: [TEXTÃO]
(Digitando...) [Texto] (Digitando...) [Textinho]
Eu: Nossa, sério? Vc tá podendo falar? Posso te ligar?
Interlocutor: Posso
sim... (Digitando ETERNAMENTE...) [TEXTÃO] (Digitando...) [Textinho] O que você
acha?
Eu: Foda... Então,
Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
A partir DESTE momento,
há múltiplos desfechos possíveis para este episódio:
1.
Eu: Foda... Então,
Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: Então...
Tô de saída aqui, depois nos falamos então...
2.
Eu: Foda... Então,
Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: (Digitando...)
... (Digitando...) ... (Digitan... Sim
3.
Eu: Foda... Então,
Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: (Pausa
fria e sinistra, denotando má-vontade) Pode...
4.
Eu: Foda... Então,
Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: (Online)
(Online) (Online) (visto por último hoje às 23:14)
5.
Eu: Foda... Então,
Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: Não dá,
tá todo mundo dormindo aqui
É um desrespeito, é um
desprezo abominável com um dos dons mais lindos e ricos que o ser humano
possui: o da fala, e tudo que ela traz: o timbre de voz, a melodia do que é
dito, a emoção no que é dito, a entonação! Que falta faz a entonação do que se
é dito, que fonte rica de desentendimento é a ausência de entonação. Esta
poderia ser compensada com uma redação apropriada, com o uso correto da vírgula
(a vírgula parece não ser coisa de Deus para a alguns) e da devida pontuação,
mas todos nós sabemos que uma boa redação em nossa língua não é o forte da
maioria dos brasileiros.
O que tem se visto é
que filhos mudos do WhatsApp usam o aplicativo para se comportar de uma maneira
que pessoalmente, ou até mesmo por telefone, seria inaceitável.
Imagina você chegar a
um conhecido e dizer: “Oi, tudo bem?” e o conhecido olhar para a sua cara, dar
as costas e sair andando. Educado? Pois é, é exatamente o que acontece quando
você manda uma mensagem para alguém, a pessoa lê (porque o negocinho azul está
lá), mas deliberadamente não responde! Não, meus caros, este não é um
comportamento adequado quando se está cara a cara com alguém, no entanto é
assim que os filhos mudos do WhatsApp se comportam, talvez porque se sintam
seguros e protegidos por trás de uma tela de smartphone e, sendo assim, vale
tudo. Vocês notam a bravura e a valentia do que se diz no WhatsApp? E por pessoas que não são tão valentes pessoalmente?
Concordo que a questão
do negocinho azul que indica se a mensagem foi lida, ou não, pode falhar, pode
ser uma falha tecnológica, ou não! E aí?
Alguns astutos e
fanfarrões vão mais longe, eles desabilitam a confirmação de leitura das
mensagens, RÁ! Te peguei! Agora sou livre para ignorar qualquer mensagem, de
qualquer pessoa, de qualquer galáxia ad eternum. Mas este foi um recurso criado
pelo aplicativo para dar aos usuários espertalhões o benefício da dúvida, e
todos são inocentes até que se prove o contrário. Já imaginaram um recurso
assim em uma comunicação ao vivo? Você me diz algo, mas não tem como saber se
eu ouvi porque meus olhos não ficaram azuis. Eita que loucura!
O manuscrito parece
estar condenado à extinção, o que faz lá um certo sentido, apesar de eu não ser
a favor ou defender tal extinção. Mas a fala, esta não. Não consigo imaginar um
mundo onde a fala seja substituída por texto. Por telepatia sim, pois, neste
caso significaria uma evolução, e ainda assim eu sentiria falta do som da voz
das pessoas que eu amo. Todo mundo tem alguém cuja voz soa como música. Uma mãe
faz seu filho dormir cantando, usando a própria voz, bebês não dormem lendo
texto. Piadas contadas são mais engraçadas do que quando lidas. Sempre me
lembro, com um sorriso, de quando meus amigos vinham me CHAMAR pra brincar: “ô
Andréééé!” Já hoje recebo uma mensagem: “Tô na porta”, que retrocesso infeliz.
É do conhecimento de
muitos o episódio sobre o artista Michelangelo, que após esculpir a estátua que
representa Moisés, ficou tão maravilhado com sua própria obra, certamente devido
à semelhança com a criatura humana, que gritou: PARLA!
Sem mais.
André Aggi.
Sem mais.
André Aggi.
sábado, 24 de outubro de 2015
A hipersolicitação do indivíduo
A
fim de aproveitar o feriado de comemoração do aniversário de Pouso “Alegre”, acabo de chegar
de um fim de semana a passeio na pulsante - quiçá arrítmica - cidade de São
Paulo. Fiz o de sempre: observar a biodiversidade humana; comer no Ragazzo e na
casa do pão de queijo; visitar a Livraria Cultura da avenida Paulista; sair
andando sem precisar cumprimentar alguém a cada vinte metros (e assim evitar
conversas vazias a título de protocolo); evitar o óbvio e apreciar o atípico
(pelo menos pra mim que vivo em uma cidade pequena e bastante típica);
encontrar com o namorado; experimentar as quatro estações do ano em um só dia
etc.
Ocorre
que - desta vez - nas minhas várias idas e vindas pela avenida Paulista - sim,
porque eu a esgoto sempre que vou a São Paulo, e quando me canso, fujo pela Alameda Santos (a minha preferida) ou mergulho na magia da rua Augusta - notei
uma mudança impossível de não ser notada pra quem tem certa intimidade com o
lugar. Algo que certamente afetou o meu desejo e meu prazer de simplesmente passear pela nossa
Quinta Avenida.
Em cerca de dois a três
quarteirões de caminhada por esta via, você terá que enfrentar bravamente: o
Green Peace; a Unicef; uma ONG que ajuda crianças de rua (em específico); uma
ONG que ajuda moradores de rua; uma ONG que ajuda animais de rua; os
homens-estátua que dão uma apitadinha quando você passa; os panfleteiros; os homens-placa;
os homens-placa-panfleteiros; os homens com uma pastinha na mão perguntando se
você tem um minuto; os homens e mulheres vendendo suas artes, os pedintes sem
causa instituída e cada vez mais insistentes (deve ser a crise), e os Hare
Krishnas (até onde pude contabilizar).
Já
faz um tempo que tal fenômeno vem ocorrendo naquele lugar, mas diante da
frequência com a qual visito a cidade, vi um aumento brusco e significativo
desta última vez, em um nível tal que senti a necessidade de escrever a
respeito. Tentei conversar sobre o assunto com algumas pessoas, mas talvez elas
não se sintam assediadas e/ou violadas e/ou incomodadas com o “festival da
necessidade” representado por 20 minutos de caminhada naquele cartão postal.
O
mundo está carente, de quase tudo, principalmente de compreensão. Daí você pode
pensar que diante da redação deste texto, falta-me compreensão com tantas e tamanhas necessidades
alheias, ao que eu respondo: talvez, quem sabe, de um certo ponto de vista... Mas eu - também - sou um ser senciente, eu também necessito,
eu também preciso da mesma compreensão. E eu gostaria de um dia caminhar por aí,
por este país, por aquela avenida, sem ser “incomodado”, sem ser solicitado.
Apenas caminhar, com meus pensamentos, com minhas observações, com meus
julgamentos, ou sem nada disso, APENAS caminhar. A contemplação é um direito que
me cabe independentemente de qualquer necessidade alheia, já que, além de um
direito, ela também é uma necessidade. Nossas necessidades e direitos estão
sempre se esbarrando e se estranhando, e, como advogado, sei o quanto é difícil
conciliar o tudo “junto e misturado”, junto sim! Misturado, nem tanto, por
gentileza. Ou ao menos me dê o direito de escolher onde e quando eu vou me
misturar.
Egoísmo?
Ah, uma mera falácia neste caso.
O
sujeito que te chama de egoísta é aquele que quer que você pare o que você está
- deliberadamente - fazendo, para fazer algo que ele acha que você deveria
estar fazendo, na maioria das vezes: algo do interesse dele, algo que tem a ver
com ele. E agora? Vamos continuar falando de egoísmo?
Reação
cliché: “então vamos todos cuidar apenas das nossas vidas e deixar o próximo se
ferrar!” Menos, querido(a). Não estou dizendo aqui que se eu presenciar uma
senhorinha despencando do alto de sua bengala e se esborrachando no chão, eu
vou seguir reto cantando La vie em rose, não. Neste caso, o meu instinto (de
Superman) é parar imediatamente e salvar a senhorinha, até porque ela é uma
senhorinha, e eu tenho esse sentimento (não sei porquê) que senhorinhas,
senhorzinhos e crianças estão sempre em perigo.
Não
consigo vislumbrar este planeta povoado por humanos desprovidos de
necessidades, onde houver humanos elas sempre estarão lá, e eu também sempre estarei lá. Logo, eu
quero pelo menos poder olhar o cardápio e escolher. Não quero que o garçom do
“festival da necessidade” venha até minha mesa e enfie uma colher de pandas em
extinção na minha boca, e já estou bem cansado do gosto amargo do aquecimento global,
eu quero escolher, por favor! Até porque, só o meu instinto é de Superman,
pois, todos nós sabemos que ele não passa de uma adorável ficção, um mito para
toda essa nossa vontade de ajudar e/ou nossa capacidade de necessitar. Nós
necessitamos tanto, ao ponto de inventarmos super-heróis para nos salvar desta falta toda e nos salvar de nós mesmos.
El
niño, aquecimento global, guigó-da-caatinga ameaçado de extinção, terremoto,
tsunami, refugiados, fanatismo religioso decepando mais cabeças do que nunca,
guerras, corrupção, “o senhor tem um minuto?” Falta de água, falta de
saneamento básico em Guinea Bissau, “vamos ajudar hoje, senhor? Não? Podemos
entrar em contato amanhã? Não? Que dia podemos entrar em contato? ” Abuso (de
toda sorte) de menores, violência doméstica, aumento da taxa de suicídio entre
adolescentes brasileiros, aumento da taxa de atropelamento por motoristas
bêbados, “vamos assinar, senhor? Vamos conversar? Vamos doar? O senhor tem um
minuto?” Transfobia, homofobia, xenofobia, CLAUSTROFOBIA!
E
eu sou só um... Eu sou só o André.
Assim
como você, eu vim parar aqui sem orientação nenhuma, sem mapa e sem bússola. Meus
mapas eu mesmo desenho e vivo me perdendo, e minha bússola é meu bem-estar. Mas e o bem-estar? Como criar espaço para o indivíduo, para as vontades pessoais,
para os sonhos de cada um? Por que a mídia que dissemina todo esse medo é a mesma que me
vende coisas que não posso e/ou não quero ter? A mesma que tenta me convencer
de que o culpado sou EU - André. A mesma que faz com que eu me sinta culpado (e
eu me sinto) de ignorar todos os solicitantes bem e mal intencionados da
Avenida Paulista.
Está
na hora de rever o conceito e a complexidade por trás de “este é um problema
meu, seu e nosso”. Nosso: quase sempre, meu: há controvérsias, senão vejamos.
Eu, André, jamais segurei uma arma de fogo e matei um animal em extinção;
jamais tirei a comida das mãos de uma criança faminta; jamais desviei cursos de
rios para construir hidroelétricas; jamais detonei bombas atômicas; jamais
despejei sequer uma das milhares de pessoas que moram nas ruas; jamais decepei
cabeças em nome de Alá. Sou gay, logo, não sou homo ou transfóbico, sou
latino-americano, logo, não sou xenófobo. São coisas contraditórias que fariam
de mim mais um hipócrita, e o mundo está cheio deles, são - entre outros – os
que te alvejam com reações clichés: “egoísta! Quer comparar os seus
probleminhas de primeiro mundo com a fome, a sede, a violência MUNDIAL (mundial
vem sempre num tom de voz mais alto)? Seu coxinha, seu ego-centrado, seu burguês
alienado!”
“A
água está acabando, você está fazendo sua parte?”
Creio
que sim, mas você já foi perguntar ao agronegócio e à indústria pecuária se
eles estão fazendo a parte deles? Já bateu na porta de alguma fábrica de
refrigerante ou cerveja para perguntar se eles estão fazendo a parte deles?
“O
desmatamento está atingindo taxas críticas, precisamos fazer algo!”
É
certo que precisamos, mas o que? O que você está fazendo? Dá uma ideia aí.
“A
guerra (em algum lugar do oriente médio) já tirou “trocentas” mil vidas ATÉ
AGORA (vai ter mais)”.
Que
fique claro, guerras são picuinhas, devaneios dos egos de uma ou duas dúzias de
bebês mimados e crescidos vestindo ternos e tailleurs de grife. Pessoas que não
tem uma vida sexual satisfatória e que se encontram momentaneamente no comando
das maiores potências mundiais, são comumente chamados de “líderes” (não sei
porquê), e devido a algum desajuste psicoemocional PESSOAL, acordam num belo
dia e decidem declarar guerra a outro país, povo, religião etc. Aí você que
está lendo este texto (ou não) decide não se envolver de modo algum no tema
e... “Alienado! Egoísta!” Isso porque algum imbecil de pinto pequeno decidiu
declarar guerra em algum lugar. Eu hein...
“O
que você está fazendo para acabar com a miséria nacional e mundial?”
Bem...
Partindo da premissa de que a omissão é uma forma de ação, vamos lá, procuro
não declarar guerra a ninguém, evito impor minha religião a quem quer que seja
(até porque eu não tenho uma), não tenho uma corporação que busca o lucro acima
de QUALQUER coisa (humana), não escravizo chineses e/ou nenhum outro povo
asiático pagando um dólar por 18 horas de trabalho, e deixe-me ver... Não
derrubo árvores, não mato animais em extinção, não abuso de crianças, não poluo
rios e mares em busca de minério e petróleo e acho que é basicamente isso. Mas,
vem cá, você já foi perguntar ao
político que você ajudou a eleger o que ele(a) está fazendo para combater a miséria
nacional e mundial? Já foi perguntar para a Coca Cola, pra Apple, pra Nike, pra
Shell? Não, né? Não adianta, né? E mesmo assim, algo te faz vir perguntar pra
mim, André, o que EU estou fazendo. Explica-me essa sua lógica, por obséquio!
“Oh,
a bomba atômica... Vejam só do que nós somos capazes”... Hein? Oi? Eu ouvi a
palavra NÓS?! Alto lá, cara-pálida! Ninguém me consultou neste ponto, eu não
tinha sequer nascido!
“O
desmatamento é um problema nosso”...
“Ó
abre alas que eu quero passar, eu sou da lira, não posso negar”.
É isso. Tem
dias, tem horas, que tudo que eu, André, indivíduo, senciente, dotado de ego, quero
é simplesmente passar! Apenas. Cresci ouvindo meus pais dizerem que “tem hora
pra tudo”, e é fato que tem.
Ajudo
no que posso, avisei a mocinha do Green Peace na Paulista que já colaboro com
uma quantia (pequena, confesso) mensal, desligo a torneira pra escovar o dente,
ensaboar o corpo e a louça. Tento ser o mais gentil possível dentro das minhas
condições emocionais de cada dia, mas não sou Jesus (nem quero ser), não
ofereço a outra face. Omito e ajo de acordo com o meu bem-estar, ele é minha
bússola, como eu disse acima.
Ajudar
o semelhante? Sim, ele é semelhante, ele se assemelha a mim, mas ele é ele e eu
sou eu. Amar e ajudar o próximo? Claro, não é à toa que ele é o próximo, depois
de mim. Digamos que eu precise de um tratamento dentário e não esteja bem de
grana, o primeiro a sofrer diante disso será o Green Peace. Eu não acredito em
mudar o mundo a partir de um lugar de necessidade, de falta.
Li
certa vez: “Aprender a lidar com o aqui e o agora e enfrentar seus desafios
pessoais é a sua prioridade máxima, pois somente quando sua casa estiver em
ordem serás capaz de dar o melhor de si para os esforços mundanos ou
idealistas”. Li, assimilei e incorporei.
E
hoje sou capaz de declarar sem culpa ou vergonha ALGUMA, de que eu sou feliz,
realizado, saudável, entre outras conquistas; independentemente do fato de
saber que existem outras pessoas no mundo que não os são.
Dizem
que a raça humana somente sobreviverá se começar a agir como uma espécie, em
conjunto, assim como as formigas e outras espécies o fazem. Mas algo nos difere
das formigas, que bom, não? Nunca gostei de andar em fila e trabalhar só pra comer.
É
uma questão truncada, difícil de resolver. Eu não tenho a solução, e se você me
cobra é porque você também não tem. E me culpar - enquanto humano - por
Auschwitz ter existido, certamente, não é o caminho mais apropriado.
Podemos
conversar, eu posso até ter um minuto ou vários, mas às vezes eu só quero
caminhar, respirar e ser grato. E não é a sujeira, a bagunça e o barulho
criados tão somente pelos meus “semelhantes” e pelo “próximo” que vão me
impedir.
Namastê
e Hare Rama!
André Aggi
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
A Síndrome de Nick
Nick é o
adorável Dachshund que vive conosco há uns bons sete ou oito anos.
Chegou aqui
em casa assustado no colo da minha mãe, que entrou de supetão em meu quarto
tentando escondê-lo do Lucca, meu sobrinho mais velho a quem o Nick estava
destinado a ser um presente de aniversário.
Confesso
que fiquei incomodado com o fato de ele ser macho (prefiro cadelas), e mais
ainda com o fato de ele aparentar já ter mais ou menos um ano de idade (senão
mais). Nada contra a adoção de animais, mas acho mágico quando o canídeo
cresce e se desenvolve com sua nova família, acostumando-se aos poucos com a
rotina da casa e a personalidade de cada um do bando.
Em cerca de
quarenta minutos já deu pra perceber que havia algo de “errado” com ele. Havia
algo no olhar, uma profunda melancolia.
Estava repleto
de pulgas e carrapatos. Eu e minha mãe lhe demos um banho quente, e com a ajuda
de pinças, arrancamos peste por peste enquanto ele - todo dengoso - esticava-se
ao sol até terminarmos o procedimento. Ao final, ele parecia aliviado, no
entanto, extremamente tímido e desconfiado. Não foi com ninguém, não fez festa
para o seu novo dono, que ficou bastante desapontado; ficou num canto,
observando e tentando entender o que estava acontecendo, ensaiava receosos abanos
de rabo, mas nada que se assemelhasse àquela alegria de simplesmente existir,
própria dos cães.
Com o tempo
descobri que o Nick é - a grosso modo - desmedidamente medroso. Tanto que o
apelidei de “O Cão Coragem”. Tem medo de “tudo”: bola, guarda-chuva, rodo,
vassoura, tempo fechado, trovão, relâmpago, chuva, água e, como todo cão,
foguetes.
Tirando o medo
patológico, no fundo eu sei que ele é um cão feliz (a prova está aqui). Talvez por ter sido criado
na roça, ele divide generosamente os restos de sua ração com os passarinhos que
visitam nosso quintal, permitindo que eles comam em sua vasilha; no entanto,
quando pombos começaram a se tornar uma presença constante, eu tomei minhas
providências. Meu avô dizia que “nada que tem demais é bom”, é uma premissa
bastante questionável, eu sei, mas pombo tem demais e não é bom. Nick não
persegue borboletas, mas abana o rabo quando vê uma; adora ficar no alpendre de
casa observando a rua e abanando o rabo para os transeuntes, e até ensaia umas
fugas até a esquina mais próxima de quando em quando; tem verdadeira adoração
por minha mãe, que certamente ele identifica como a chefe do bando, a
matriarca, a provedora, ele a vê chegando com sacolas de supermercado cheias de
comida; adora correr atrás de pequenos pedaços de pão, quanto mais longe
jogamos, mais divertido parece ser pra ele, corre feito uma lebre alucinada.
É um
excelente cão de guarda, late até para os pernilongos que passam na rua em frente
de casa. Late como um Dobermann quando um estranho (pra ele) vem nos visitar, “odeia”
com todas as forças o entregador de gás.
Desde sempre
temos o costume de não permitir nossos cães dentro de casa. É um costume que
começou com meus pais, pois, por mim eu assistiria meus seriados com eles ao lado.
Cães são a melhor companhia do mundo, mas isso todo mundo já sabe.
Porém,
quando o Nick se sente ameaçado e/ou com medo, ele entra sorrateiramente pela
porta da cozinha e se esconde num espaço muito pequeno debaixo de um dos
armários. Seguindo nossa tradição, e com o intuito de ensinar a ele respeito às
ordens do bando, sempre o expulsamos. No começo apenas o mandávamos sair dando
umas pancadinhas no armário, mas o negócio se tornou um vício contraventor, uma
insistência irritante por parte dele. Irritante - primeiramente - porque gostaríamos
que ele entendesse que, exceto pelos foguetes, não há nada a temer quanto aos
fenômenos da natureza, pois, sempre gostei desses cães que correm na chuva e
pulam em piscina. E também porque cozinha não é lugar de cachorro, não a nossa.
Ele tem a casinha dele que é limpa duas vezes por semana, e mais todo o
conforto do mundo em um quintal com cerca de quinze metros quadrados.
Tentamos de
tudo, “jornaladas” de efeito moral (jornal enrolado não dói, experimente!),
água, Havaianas (minha mãe), broncas e mais broncas (cães entendem que estamos
decepcionados com eles), castigo através de restrição de espaço (coleira), mas
nada adiantou.
Hoje, ao
expulsá-lo pra fora do seu bunker pela milionésima vez, recorri à ideia do meu
irmão de passar fita durex nos pés do armário. A não ser que ele rasgue a fita
com os dentes (e o Nick não é de rasgar coisas), não vai mais ser possível pra
ele continuar se enfiando ali.
Vim pro
escritório e mentalmente refiz - também - pela milionésima vez a pergunta: “Por
que ele entra lá embaixo se ele sabe que haverá consequências?” E também: “Por
que esse medo idiota de coisas idiotas?”
Como sempre
não obtive respostas, mas desta vez ocorreu um clique. O comportamento do meu
cachorro “esfregou” violentamente um dos meus próprios comportamentos na minha
cara, meu e de uma parcela colossal da humanidade.
Por que
continuo me escondendo debaixo de um “armário de cozinha” cada vez uma “tempestade”
que se aproxima? Por que continuo fazendo isto com uma repetitividade imbecil e
quiçá patológica?
Por que se
esconder com medo? E por que se esconder no pior lugar possível? Por que entrar
num lugar que eu sei que não vai ser bom pra mim?
Pra que
manter uma atitude que me afasta e magoa as pessoas que eu amo e que se
importam comigo?
Muitos
dirão - em analogia ao comportamento do Nick: “por que é seguro!” Ou porque ao
menos passa a sensação de segurança. E então eu respondo - também - em analogia
ao comportamento do Nick: ilusão! Considerando o comportamento dele aplicado
aos humanos, não é melhor a emoção de encarar aquela “tempestade”?
Não é
melhor tentar compreender o porquê do céu escurecer, da bola rolar, da água
molhar, do foguete fazer barulho? Não é melhor ver um relâmpago como luz ao invés
de ameaça? Ou ainda, como movimento, dinamismo, como uma manifestação de algo
maior do que nós, e contra a qual nada podemos fazer? O Nick talvez e infelizmente
jamais saberá, mas nós temos o benefício da razão! E ainda assim continuamos com
o rabo entre as pernas.
De quantos
perigos imaginários nos escondemos todo dia? Dói só de começar a contabilizar o
quanto nós perdemos durante aquele tempo em que estamos escondidos debaixo de
armários, e pelas razões mais absurdas.
Por que continuo
pensando (com força) naquele cara lindo de viver, que apareceu todo galanteador,
mas que no próximo capítulo deixou bem claro que não queria nada comigo? Por
que continuo morando em um lugar que não oferece estímulo algum a minha grandeza
de espírito? Por que continuo conversando com aquela pessoa que vendou os olhos
para a vida, e tenta ardilosa e silenciosamente vendar os meus? Por que não
começo a trabalhar naquele filme que eu quero TANTO fazer? Por que, enfim, não
exponho minha cara à mais louca tempestade? Depois dela não vem a bonança?!
Quantos
vãos de armários...
No caso de
nós, humanos, o pior vão de armário é sempre o mental. Perdemos (-nos) ao nos enfiar
infinita e constantemente nos meandros escuros e estreitos dos nossos universos
pessoais (nossas mentes), tremendo de medo das “bolas”, “guarda-chuvas” e “tempestades”,
sendo que a bola pode ser um brinquedo, o guarda-chuva uma proteção, e a
tempestade a salvação em tempos de seca. E o foguete? Este é tão efêmero quanto
barulhento, uma hora ele invariavelmente acaba, e o alívio sempre vem. E não saberíamos
do valor do alívio sem a intempérie que o precede. Isto é o que Esther Hicks
chama - brilhantemente - de “contraste”.
Hoje, no penúltimo
dia no ano, fui diagnosticado com a Síndrome de Nick. Mas felizmente não se trata
de fase terminal, já estive e fui pior. São aquelas doenças que você tem, mas
não sabe que tem, como uma sífilis que desaparece com a amoxicilina que você
toma para dor de garganta. E 2015 já está virando a esquina, trazendo
excelentes oportunidades de tratamento.
Eu já disse
aqui neste blog que fórmulas (exceto as matemáticas) são um tanto quanto
traiçoeiras. Logo, o tratamento para a Síndrome de Nick vai de cada um. Terapeutas
- todavia - são recomendados, autoconsciência mais ainda: “conhece-te a ti
mesmo”. E isso - às vezes - só é possível através do contraste. Dói que nem
mertiolate no joelho esfolado, mas e o troféu que era exibir aquela “manchona”
vermelha na escola? Sumia a mancha, sumia o esfolado e restava o aprendizado:
fazer melhor da próxima vez! E não correr pra debaixo do armário.
O Nick tem
humanos que tentam persistentemente ensiná-lo que não há nada a temer. E nós, os
humanos? Creio que somos deuses solitários, com o poder de nos reconhecermos
nos outros, nos reconhecermos até em criaturas adoráveis como um animal de estimação.
Obrigado,
seu “bêjêugo pequerrucho”. Obrigado pelo amor incondicional e pela lição.
André Aggi.
terça-feira, 17 de junho de 2014
Ânima
Eu vejo você em mim.
Eu vejo você me observando, escondido em algum belo recôndito da grandeza do meu ser, como se este fosse o seu principal e único papel.
Eu sei que você gosta de ficar ora aqui ora ali, brincando comigo, tentando chamar a minha atenção, porém, sem fazer esforço, pois este não é da sua natureza. Você é filho da perfeição do infinito, logo, “esforço” é algo que você desconhece, não lhe faz sentido algum; e por isso você zomba de mim com carinho, quando me vê em meio ao pânico do afã de tentar chegar a lugares que não se chega. Pois, você sabe que não há fragmentações, não é mesmo? Isso é coisa dos personagens humanos. Menino, esses humanos! Vou te falar, eles inventam cada uma... Tempo, idade, religião, países, títulos, deuses, salas, clubes, castelos, profissões, organizações etc. Tudo com o intuito de separar, apenas.
“Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles”.
De uns tempos pra cá tenho prestado mais atenção em você. Quero te conhecer melhor, mas ainda não aprendi a falar sua língua, e sei que você não pode aprender a minha, sua dimensão o impede de se comunicar de maneira tão primitiva.
Mas não pense você que eu não noto as projeções físicas que você coloca em meu caminho, esperando que eu finalmente desista de resistir aos seus encantos; livros, filmes, situações, eventos, circunstâncias, sorrisos, brincadeiras e aquele calor no coração que vem do nada às vezes e te deixa sorrindo à toa sozinho. “Sozinho”... Outra invenção dos humanos. Nem sei te explicar o que eles querem ao certo dizer com isso, mas aquela em específico, além de nos separar, nos faz acreditar que estamos tristes por estarmos... sozinhos. Bem, deixa pra lá, você não precisa entender, e nem conseguiria.
Sabia que te chamam de muitas coisas por aqui? Deus, anjo da guarda, divindade, santo protetor, id, Jesus, estrela-guia, alma, criança interior etc. E não é só isso, além de te darem nomes engraçados, dizem que você está sempre fora, acima, no céu, no espaço, na quinta, sexta, sétima dimensão. E para completar, pegam você, lhe dão outro nome, e lhe usam como desculpa para justificar os atos e fatos mais escabrosos de que se tem - e não tem - ciência.
Eu sei que você habita em mim desde sempre até o insondável. Sei também, que um “dia” nós fomos bastante próximos, mais do que íntimos. Fomos de uma proximidade tal, que os personagens humanos não são capazes de compreender ou sequer imaginar. Mas será que ainda não somos? O que se perdeu?
Posso sentir você rindo com carinho destas perguntas neste exato momento. Tudo bem, eu sou novo nisso e preciso aprender, preciso me lembrar. E pra isso preciso ser, somente. Parar de agir, de ciscar, de tentar voar com uma asa só, de correr atrás da minha cauda. O carrossel é - sem dúvida - divertido, colorido e toca música, mas até que ponto?
“O caminho é uma constante não-ação que nada deixa por realizar”.
(Tao Te Ching)
Veja, você continua ai, e isto me conforta (e me irrita muitas vezes), esta sua “teimosia” em me lembrar quem nós somos - eu e você (completos).
Hoje conheço do inventário dos momentos em que estivemos juntos novamente, e eu não fazia ideia de que aquilo era na verdade a sua iminência. Todas aquelas vezes em que parei de lutar, de resistir, de me preocupar, de “dar murro em ponta de faca”, de “nadar contra a corrente”, eu criei um ambiente mais propício para que você chegasse até a mim, e assim, entendi nosso nobre ofício. E enquanto isso, aqui fora, as coisas - que são apenas coisas - se encaixaram na mais perfeita e divina ordem, sem “como”, “porquê” nem “quando”. Ai eu percebi também – e ao contrário do que imaginei – que seu papel não é apenas me observar, mas sim observar ATRAVÉS de mim, em mim, dentro e fora, crescendo, pulsando, ganhando força na mesma proporção em que permito; a ponto de inundar o que eu sou (você) e por fim transbordar, fazendo florescer a ideia original, e cumprindo o inevitável.
“A mecânica quântica calcula apenas possibilidades. Quem ou que escolhe entre essas possibilidades para trazer o evento real da experiência? A consciência deve estar envolvida. O observador não pode ser ignorado”.
(Amit Goswami em “Quem Somos Nós?”)
Vê? Que magia é essa de indescritível beleza, que as palavras não explicam e a matemática não calcula?
Não sei, o saber é lógico. Pobres os que, ao tentar entender, deixam de sentir. E se perdem de si mesmos.
Eu vejo você ai e aqui. Você, força motriz, com seus vários nomes, seu brilho eterno e indestrutível nos olhos, seu amor infinito. Vejo você, que contém o universo e além dentro de si, animando cada átomo do meu corpo, me curando, dando vida aos meus sonhos, colorindo o planeta e a própria vida. Eu vejo você, André. Você me assombra e me fascina, e por mais que eu lute contra, me atrai irresistivelmente para a dimensão do que eu sou. Meu maior segredo e fonte do meu maior poder, cuja negação se traduz na minha maior fraqueza.
A resposta, a causa, o sentido, o motivo, a luz, a solução, a essência; todos encerrados e contidos em: você.
As estrelas não brilham se você não olhar pra elas. Percebe?
André Aggi.
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