terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A Síndrome de Nick

Nick é o adorável Dachshund que vive conosco há uns bons sete ou oito anos.



Chegou aqui em casa assustado no colo da minha mãe, que entrou de supetão em meu quarto tentando escondê-lo do Lucca, meu sobrinho mais velho a quem o Nick estava destinado a ser um presente de aniversário.

Confesso que fiquei incomodado com o fato de ele ser macho (prefiro cadelas), e mais ainda com o fato de ele aparentar já ter mais ou menos um ano de idade (senão mais). Nada contra a adoção de animais, mas acho mágico quando o canídeo cresce e se desenvolve com sua nova família, acostumando-se aos poucos com a rotina da casa e a personalidade de cada um do bando.

Em cerca de quarenta minutos já deu pra perceber que havia algo de “errado” com ele. Havia algo no olhar, uma profunda melancolia.

Estava repleto de pulgas e carrapatos. Eu e minha mãe lhe demos um banho quente, e com a ajuda de pinças, arrancamos peste por peste enquanto ele - todo dengoso - esticava-se ao sol até terminarmos o procedimento. Ao final, ele parecia aliviado, no entanto, extremamente tímido e desconfiado. Não foi com ninguém, não fez festa para o seu novo dono, que ficou bastante desapontado; ficou num canto, observando e tentando entender o que estava acontecendo, ensaiava receosos abanos de rabo, mas nada que se assemelhasse àquela alegria de simplesmente existir, própria dos cães.

Com o tempo descobri que o Nick é - a grosso modo - desmedidamente medroso. Tanto que o apelidei de “O Cão Coragem”. Tem medo de “tudo”: bola, guarda-chuva, rodo, vassoura, tempo fechado, trovão, relâmpago, chuva, água e, como todo cão, foguetes.



Tirando o medo patológico, no fundo eu sei que ele é um cão feliz (a prova está aqui). Talvez por ter sido criado na roça, ele divide generosamente os restos de sua ração com os passarinhos que visitam nosso quintal, permitindo que eles comam em sua vasilha; no entanto, quando pombos começaram a se tornar uma presença constante, eu tomei minhas providências. Meu avô dizia que “nada que tem demais é bom”, é uma premissa bastante questionável, eu sei, mas pombo tem demais e não é bom. Nick não persegue borboletas, mas abana o rabo quando vê uma; adora ficar no alpendre de casa observando a rua e abanando o rabo para os transeuntes, e até ensaia umas fugas até a esquina mais próxima de quando em quando; tem verdadeira adoração por minha mãe, que certamente ele identifica como a chefe do bando, a matriarca, a provedora, ele a vê chegando com sacolas de supermercado cheias de comida; adora correr atrás de pequenos pedaços de pão, quanto mais longe jogamos, mais divertido parece ser pra ele, corre feito uma lebre alucinada.

É um excelente cão de guarda, late até para os pernilongos que passam na rua em frente de casa. Late como um Dobermann quando um estranho (pra ele) vem nos visitar, “odeia” com todas as forças o entregador de gás.



Desde sempre temos o costume de não permitir nossos cães dentro de casa. É um costume que começou com meus pais, pois, por mim eu assistiria meus seriados com eles ao lado. Cães são a melhor companhia do mundo, mas isso todo mundo já sabe.

Porém, quando o Nick se sente ameaçado e/ou com medo, ele entra sorrateiramente pela porta da cozinha e se esconde num espaço muito pequeno debaixo de um dos armários. Seguindo nossa tradição, e com o intuito de ensinar a ele respeito às ordens do bando, sempre o expulsamos. No começo apenas o mandávamos sair dando umas pancadinhas no armário, mas o negócio se tornou um vício contraventor, uma insistência irritante por parte dele. Irritante - primeiramente - porque gostaríamos que ele entendesse que, exceto pelos foguetes, não há nada a temer quanto aos fenômenos da natureza, pois, sempre gostei desses cães que correm na chuva e pulam em piscina. E também porque cozinha não é lugar de cachorro, não a nossa. Ele tem a casinha dele que é limpa duas vezes por semana, e mais todo o conforto do mundo em um quintal com cerca de quinze metros quadrados.

Tentamos de tudo, “jornaladas” de efeito moral (jornal enrolado não dói, experimente!), água, Havaianas (minha mãe), broncas e mais broncas (cães entendem que estamos decepcionados com eles), castigo através de restrição de espaço (coleira), mas nada adiantou.

Hoje, ao expulsá-lo pra fora do seu bunker pela milionésima vez, recorri à ideia do meu irmão de passar fita durex nos pés do armário. A não ser que ele rasgue a fita com os dentes (e o Nick não é de rasgar coisas), não vai mais ser possível pra ele continuar se enfiando ali.



Vim pro escritório e mentalmente refiz - também - pela milionésima vez a pergunta: “Por que ele entra lá embaixo se ele sabe que haverá consequências?” E também: “Por que esse medo idiota de coisas idiotas?”

Como sempre não obtive respostas, mas desta vez ocorreu um clique. O comportamento do meu cachorro “esfregou” violentamente um dos meus próprios comportamentos na minha cara, meu e de uma parcela colossal da humanidade.

Por que continuo me escondendo debaixo de um “armário de cozinha” cada vez uma “tempestade” que se aproxima? Por que continuo fazendo isto com uma repetitividade imbecil e quiçá patológica?

Por que se esconder com medo? E por que se esconder no pior lugar possível? Por que entrar num lugar que eu sei que não vai ser bom pra mim?

Pra que manter uma atitude que me afasta e magoa as pessoas que eu amo e que se importam comigo?

Muitos dirão - em analogia ao comportamento do Nick: “por que é seguro!” Ou porque ao menos passa a sensação de segurança. E então eu respondo - também - em analogia ao comportamento do Nick: ilusão! Considerando o comportamento dele aplicado aos humanos, não é melhor a emoção de encarar aquela “tempestade”?

Não é melhor tentar compreender o porquê do céu escurecer, da bola rolar, da água molhar, do foguete fazer barulho? Não é melhor ver um relâmpago como luz ao invés de ameaça? Ou ainda, como movimento, dinamismo, como uma manifestação de algo maior do que nós, e contra a qual nada podemos fazer? O Nick talvez e infelizmente jamais saberá, mas nós temos o benefício da razão! E ainda assim continuamos com o rabo entre as pernas.

De quantos perigos imaginários nos escondemos todo dia? Dói só de começar a contabilizar o quanto nós perdemos durante aquele tempo em que estamos escondidos debaixo de armários, e pelas razões mais absurdas.



Por que continuo pensando (com força) naquele cara lindo de viver, que apareceu todo galanteador, mas que no próximo capítulo deixou bem claro que não queria nada comigo? Por que continuo morando em um lugar que não oferece estímulo algum a minha grandeza de espírito? Por que continuo conversando com aquela pessoa que vendou os olhos para a vida, e tenta ardilosa e silenciosamente vendar os meus? Por que não começo a trabalhar naquele filme que eu quero TANTO fazer? Por que, enfim, não exponho minha cara à mais louca tempestade? Depois dela não vem a bonança?!

Quantos vãos de armários...

No caso de nós, humanos, o pior vão de armário é sempre o mental. Perdemos (-nos) ao nos enfiar infinita e constantemente nos meandros escuros e estreitos dos nossos universos pessoais (nossas mentes), tremendo de medo das “bolas”, “guarda-chuvas” e “tempestades”, sendo que a bola pode ser um brinquedo, o guarda-chuva uma proteção, e a tempestade a salvação em tempos de seca. E o foguete? Este é tão efêmero quanto barulhento, uma hora ele invariavelmente acaba, e o alívio sempre vem. E não saberíamos do valor do alívio sem a intempérie que o precede. Isto é o que Esther Hicks chama -  brilhantemente - de “contraste”.



Hoje, no penúltimo dia no ano, fui diagnosticado com a Síndrome de Nick. Mas felizmente não se trata de fase terminal, já estive e fui pior. São aquelas doenças que você tem, mas não sabe que tem, como uma sífilis que desaparece com a amoxicilina que você toma para dor de garganta. E 2015 já está virando a esquina, trazendo excelentes oportunidades de tratamento.

Eu já disse aqui neste blog que fórmulas (exceto as matemáticas) são um tanto quanto traiçoeiras. Logo, o tratamento para a Síndrome de Nick vai de cada um. Terapeutas - todavia - são recomendados, autoconsciência mais ainda: “conhece-te a ti mesmo”. E isso - às vezes - só é possível através do contraste. Dói que nem mertiolate no joelho esfolado, mas e o troféu que era exibir aquela “manchona” vermelha na escola? Sumia a mancha, sumia o esfolado e restava o aprendizado: fazer melhor da próxima vez! E não correr pra debaixo do armário.

O Nick tem humanos que tentam persistentemente ensiná-lo que não há nada a temer. E nós, os humanos? Creio que somos deuses solitários, com o poder de nos reconhecermos nos outros, nos reconhecermos até em criaturas adoráveis como um animal de estimação.



Obrigado, seu “bêjêugo pequerrucho”. Obrigado pelo amor incondicional e pela lição.


André Aggi.