Nick é o
adorável Dachshund que vive conosco há uns bons sete ou oito anos.
Chegou aqui
em casa assustado no colo da minha mãe, que entrou de supetão em meu quarto
tentando escondê-lo do Lucca, meu sobrinho mais velho a quem o Nick estava
destinado a ser um presente de aniversário.
Confesso
que fiquei incomodado com o fato de ele ser macho (prefiro cadelas), e mais
ainda com o fato de ele aparentar já ter mais ou menos um ano de idade (senão
mais). Nada contra a adoção de animais, mas acho mágico quando o canídeo
cresce e se desenvolve com sua nova família, acostumando-se aos poucos com a
rotina da casa e a personalidade de cada um do bando.
Em cerca de
quarenta minutos já deu pra perceber que havia algo de “errado” com ele. Havia
algo no olhar, uma profunda melancolia.
Estava repleto
de pulgas e carrapatos. Eu e minha mãe lhe demos um banho quente, e com a ajuda
de pinças, arrancamos peste por peste enquanto ele - todo dengoso - esticava-se
ao sol até terminarmos o procedimento. Ao final, ele parecia aliviado, no
entanto, extremamente tímido e desconfiado. Não foi com ninguém, não fez festa
para o seu novo dono, que ficou bastante desapontado; ficou num canto,
observando e tentando entender o que estava acontecendo, ensaiava receosos abanos
de rabo, mas nada que se assemelhasse àquela alegria de simplesmente existir,
própria dos cães.
Com o tempo
descobri que o Nick é - a grosso modo - desmedidamente medroso. Tanto que o
apelidei de “O Cão Coragem”. Tem medo de “tudo”: bola, guarda-chuva, rodo,
vassoura, tempo fechado, trovão, relâmpago, chuva, água e, como todo cão,
foguetes.
Tirando o medo
patológico, no fundo eu sei que ele é um cão feliz (a prova está aqui). Talvez por ter sido criado
na roça, ele divide generosamente os restos de sua ração com os passarinhos que
visitam nosso quintal, permitindo que eles comam em sua vasilha; no entanto,
quando pombos começaram a se tornar uma presença constante, eu tomei minhas
providências. Meu avô dizia que “nada que tem demais é bom”, é uma premissa
bastante questionável, eu sei, mas pombo tem demais e não é bom. Nick não
persegue borboletas, mas abana o rabo quando vê uma; adora ficar no alpendre de
casa observando a rua e abanando o rabo para os transeuntes, e até ensaia umas
fugas até a esquina mais próxima de quando em quando; tem verdadeira adoração
por minha mãe, que certamente ele identifica como a chefe do bando, a
matriarca, a provedora, ele a vê chegando com sacolas de supermercado cheias de
comida; adora correr atrás de pequenos pedaços de pão, quanto mais longe
jogamos, mais divertido parece ser pra ele, corre feito uma lebre alucinada.
É um
excelente cão de guarda, late até para os pernilongos que passam na rua em frente
de casa. Late como um Dobermann quando um estranho (pra ele) vem nos visitar, “odeia”
com todas as forças o entregador de gás.
Desde sempre
temos o costume de não permitir nossos cães dentro de casa. É um costume que
começou com meus pais, pois, por mim eu assistiria meus seriados com eles ao lado.
Cães são a melhor companhia do mundo, mas isso todo mundo já sabe.
Porém,
quando o Nick se sente ameaçado e/ou com medo, ele entra sorrateiramente pela
porta da cozinha e se esconde num espaço muito pequeno debaixo de um dos
armários. Seguindo nossa tradição, e com o intuito de ensinar a ele respeito às
ordens do bando, sempre o expulsamos. No começo apenas o mandávamos sair dando
umas pancadinhas no armário, mas o negócio se tornou um vício contraventor, uma
insistência irritante por parte dele. Irritante - primeiramente - porque gostaríamos
que ele entendesse que, exceto pelos foguetes, não há nada a temer quanto aos
fenômenos da natureza, pois, sempre gostei desses cães que correm na chuva e
pulam em piscina. E também porque cozinha não é lugar de cachorro, não a nossa.
Ele tem a casinha dele que é limpa duas vezes por semana, e mais todo o
conforto do mundo em um quintal com cerca de quinze metros quadrados.
Tentamos de
tudo, “jornaladas” de efeito moral (jornal enrolado não dói, experimente!),
água, Havaianas (minha mãe), broncas e mais broncas (cães entendem que estamos
decepcionados com eles), castigo através de restrição de espaço (coleira), mas
nada adiantou.
Hoje, ao
expulsá-lo pra fora do seu bunker pela milionésima vez, recorri à ideia do meu
irmão de passar fita durex nos pés do armário. A não ser que ele rasgue a fita
com os dentes (e o Nick não é de rasgar coisas), não vai mais ser possível pra
ele continuar se enfiando ali.
Vim pro
escritório e mentalmente refiz - também - pela milionésima vez a pergunta: “Por
que ele entra lá embaixo se ele sabe que haverá consequências?” E também: “Por
que esse medo idiota de coisas idiotas?”
Como sempre
não obtive respostas, mas desta vez ocorreu um clique. O comportamento do meu
cachorro “esfregou” violentamente um dos meus próprios comportamentos na minha
cara, meu e de uma parcela colossal da humanidade.
Por que
continuo me escondendo debaixo de um “armário de cozinha” cada vez uma “tempestade”
que se aproxima? Por que continuo fazendo isto com uma repetitividade imbecil e
quiçá patológica?
Por que se
esconder com medo? E por que se esconder no pior lugar possível? Por que entrar
num lugar que eu sei que não vai ser bom pra mim?
Pra que
manter uma atitude que me afasta e magoa as pessoas que eu amo e que se
importam comigo?
Muitos
dirão - em analogia ao comportamento do Nick: “por que é seguro!” Ou porque ao
menos passa a sensação de segurança. E então eu respondo - também - em analogia
ao comportamento do Nick: ilusão! Considerando o comportamento dele aplicado
aos humanos, não é melhor a emoção de encarar aquela “tempestade”?
Não é
melhor tentar compreender o porquê do céu escurecer, da bola rolar, da água
molhar, do foguete fazer barulho? Não é melhor ver um relâmpago como luz ao invés
de ameaça? Ou ainda, como movimento, dinamismo, como uma manifestação de algo
maior do que nós, e contra a qual nada podemos fazer? O Nick talvez e infelizmente
jamais saberá, mas nós temos o benefício da razão! E ainda assim continuamos com
o rabo entre as pernas.
De quantos
perigos imaginários nos escondemos todo dia? Dói só de começar a contabilizar o
quanto nós perdemos durante aquele tempo em que estamos escondidos debaixo de
armários, e pelas razões mais absurdas.
Por que continuo
pensando (com força) naquele cara lindo de viver, que apareceu todo galanteador,
mas que no próximo capítulo deixou bem claro que não queria nada comigo? Por
que continuo morando em um lugar que não oferece estímulo algum a minha grandeza
de espírito? Por que continuo conversando com aquela pessoa que vendou os olhos
para a vida, e tenta ardilosa e silenciosamente vendar os meus? Por que não
começo a trabalhar naquele filme que eu quero TANTO fazer? Por que, enfim, não
exponho minha cara à mais louca tempestade? Depois dela não vem a bonança?!
Quantos
vãos de armários...
No caso de
nós, humanos, o pior vão de armário é sempre o mental. Perdemos (-nos) ao nos enfiar
infinita e constantemente nos meandros escuros e estreitos dos nossos universos
pessoais (nossas mentes), tremendo de medo das “bolas”, “guarda-chuvas” e “tempestades”,
sendo que a bola pode ser um brinquedo, o guarda-chuva uma proteção, e a
tempestade a salvação em tempos de seca. E o foguete? Este é tão efêmero quanto
barulhento, uma hora ele invariavelmente acaba, e o alívio sempre vem. E não saberíamos
do valor do alívio sem a intempérie que o precede. Isto é o que Esther Hicks
chama - brilhantemente - de “contraste”.
Hoje, no penúltimo
dia no ano, fui diagnosticado com a Síndrome de Nick. Mas felizmente não se trata
de fase terminal, já estive e fui pior. São aquelas doenças que você tem, mas
não sabe que tem, como uma sífilis que desaparece com a amoxicilina que você
toma para dor de garganta. E 2015 já está virando a esquina, trazendo
excelentes oportunidades de tratamento.
Eu já disse
aqui neste blog que fórmulas (exceto as matemáticas) são um tanto quanto
traiçoeiras. Logo, o tratamento para a Síndrome de Nick vai de cada um. Terapeutas
- todavia - são recomendados, autoconsciência mais ainda: “conhece-te a ti
mesmo”. E isso - às vezes - só é possível através do contraste. Dói que nem
mertiolate no joelho esfolado, mas e o troféu que era exibir aquela “manchona”
vermelha na escola? Sumia a mancha, sumia o esfolado e restava o aprendizado:
fazer melhor da próxima vez! E não correr pra debaixo do armário.
O Nick tem
humanos que tentam persistentemente ensiná-lo que não há nada a temer. E nós, os
humanos? Creio que somos deuses solitários, com o poder de nos reconhecermos
nos outros, nos reconhecermos até em criaturas adoráveis como um animal de estimação.
Obrigado,
seu “bêjêugo pequerrucho”. Obrigado pelo amor incondicional e pela lição.
André Aggi.






