Não sabemos que rumo a
comunicação interpessoal – próxima e à distância - vai tomar a curto e a longo
prazo, mas será muito difícil me adaptar ao que tem se visto por aí.
Eu sou do tempo em que
as pessoas sem qualquer tipo de deficiência vocal e/ou auditiva usavam suas
vozes para se comunicar umas com as outras, mas este tipo de comunicação está
minguando.
E a principal (há
outras) figura que está assumindo o papel das cordas vocais se chama WhatsApp.
O negócio apita a todo momento, sinalizando que há ali uma(s) solicitação(s) de
comunicação. Você então abre o aplicativo, verifica quem é o interlocutor em
questão, e corresponde ao chamado. Até aí TUDO BEM, tudo ótimo! Mas de repente
você nota que não se trata de uma comunicação banal, não se trata de um: “Oi
tudo bem? Pode FALAR?” Ao que você responde: “Sim, posso.”
Não!
Minutos depois você
está participando, na verdade, de uma deliberação de assembleia, de um sermão
da montanha, de uma análise da expressão de RNAs não codificadores longos em
adenocarcinoma de pâncreas! Como se diz aqui em Minas: “Crendeuspai!”
Vejam bem, talvez o
negócio aqui seja mais uma "implicância" minha (das muitas que tenho), seja mais uma
questão pessoal. Eu tenho 1,98m de altura, logo, minhas mãos e meus dedos são
proporcionais a esta medida. É difícil para mim, é como se fosse uma prova de
gincana segurar esse aparelhinho na mão e tocar em quadradinhos individuais com
uma área de 7 por 5 MILÍMETROS cada, a fim de transmitir uma ideia! As pessoas
chamam isso de “digitar”, desculpem-me, mas “digitar” é o que você faz
apertando botões ou teclas visíveis a olho nu! ISTO é digitar. Touch Screen
está mais para um “carinho”, uma “cosquinha”. E discutir a origem do universo
fazendo cosquinha numa telinha de um aparelhinho é INSANO!
Aí vem um gênio, um
Steve Jobs ou um Bill Gates da vida e sugere:
- Tem uma solução pra
isso! Baixe um teclado com “teclas” maiores!
(Tipo: “seus problemas
acabaram!”)
Eu já tentei, mas não
melhorou muita coisa, e logo em seguida me lembrei: Mas peraí! A questão NÃO é
esta! Não é um “teclado” maior. A questão é que eu ainda consigo usar minha
voz. O próprio WhatsApp oferece a opção “mensagem de voz” e até mesmo “chamada”.
Mas não! Vamos ser impessoais? Vamos TECLAR? Teclar é legal, teclar é seguro,
teclar é privacidade, você não precisa ouvir minha voz, você não precisa saber
que estou teclando com você e fazendo outras mil coisas ao mesmo tempo, e às
vezes não estou nem aí para o que você está "falando", só estou com tédio e quero
ocupar minhas mãos.
Teclar é tendência,
teclar é “in”, é sim, INsuportável.
Falar ao telefone até
meus 20 anos de idade era artigo de luxo, era caro, muito caro, qualquer pessoa
com mais de 30 anos de idade deve se lembrar. Mas o negócio mudou! Como é do
conhecimento de todo mundo, o próprio aplicativo em questão oferece o “serviço”
de chamada de VOZ... DE GRAÇA! Hein? Vamos usar? Está certo que a qualidade da
chamada nem sempre é lá essas coisas, mas oi? É de graça!
Está valendo tudo pelo
Whats: começo de namoro, oficialização de namoro, D.R., término de namoro,
negócios, entrevista de emprego, contratação, demissão, exposição de arte, curso
de mandarim etc.
Eu me pego
constantemente na seguinte situação:
Interlocutor: Oi
Eu: Oi
Interlocutor: Bem?
Eu: Bão
Interlocutor: Vai sair
hoje?
Eu: Acho que não e
você?
Interlocutor: Eu
queria, mas tem o lance lá...
Eu: Que lance?
Interlocutor: [TEXTÃO]
Eu: Hum...
Interlocutor: [TEXTÃO]
(Digitando...) [Texto] (Digitando...) [Textinho]
Eu: Nossa, sério? Vc tá podendo falar? Posso te ligar?
Interlocutor: Posso
sim... (Digitando ETERNAMENTE...) [TEXTÃO] (Digitando...) [Textinho] O que você
acha?
Eu: Foda... Então,
Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
A partir DESTE momento,
há múltiplos desfechos possíveis para este episódio:
1.
Eu: Foda... Então,
Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: Então...
Tô de saída aqui, depois nos falamos então...
2.
Eu: Foda... Então,
Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: (Digitando...)
... (Digitando...) ... (Digitan... Sim
3.
Eu: Foda... Então,
Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: (Pausa
fria e sinistra, denotando má-vontade) Pode...
4.
Eu: Foda... Então,
Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: (Online)
(Online) (Online) (visto por último hoje às 23:14)
5.
Eu: Foda... Então,
Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: Não dá,
tá todo mundo dormindo aqui
É um desrespeito, é um
desprezo abominável com um dos dons mais lindos e ricos que o ser humano
possui: o da fala, e tudo que ela traz: o timbre de voz, a melodia do que é
dito, a emoção no que é dito, a entonação! Que falta faz a entonação do que se
é dito, que fonte rica de desentendimento é a ausência de entonação. Esta
poderia ser compensada com uma redação apropriada, com o uso correto da vírgula
(a vírgula parece não ser coisa de Deus para a alguns) e da devida pontuação,
mas todos nós sabemos que uma boa redação em nossa língua não é o forte da
maioria dos brasileiros.
O que tem se visto é
que filhos mudos do WhatsApp usam o aplicativo para se comportar de uma maneira
que pessoalmente, ou até mesmo por telefone, seria inaceitável.
Imagina você chegar a
um conhecido e dizer: “Oi, tudo bem?” e o conhecido olhar para a sua cara, dar
as costas e sair andando. Educado? Pois é, é exatamente o que acontece quando
você manda uma mensagem para alguém, a pessoa lê (porque o negocinho azul está
lá), mas deliberadamente não responde! Não, meus caros, este não é um
comportamento adequado quando se está cara a cara com alguém, no entanto é
assim que os filhos mudos do WhatsApp se comportam, talvez porque se sintam
seguros e protegidos por trás de uma tela de smartphone e, sendo assim, vale
tudo. Vocês notam a bravura e a valentia do que se diz no WhatsApp? E por pessoas que não são tão valentes pessoalmente?
Concordo que a questão
do negocinho azul que indica se a mensagem foi lida, ou não, pode falhar, pode
ser uma falha tecnológica, ou não! E aí?
Alguns astutos e
fanfarrões vão mais longe, eles desabilitam a confirmação de leitura das
mensagens, RÁ! Te peguei! Agora sou livre para ignorar qualquer mensagem, de
qualquer pessoa, de qualquer galáxia ad eternum. Mas este foi um recurso criado
pelo aplicativo para dar aos usuários espertalhões o benefício da dúvida, e
todos são inocentes até que se prove o contrário. Já imaginaram um recurso
assim em uma comunicação ao vivo? Você me diz algo, mas não tem como saber se
eu ouvi porque meus olhos não ficaram azuis. Eita que loucura!
O manuscrito parece
estar condenado à extinção, o que faz lá um certo sentido, apesar de eu não ser
a favor ou defender tal extinção. Mas a fala, esta não. Não consigo imaginar um
mundo onde a fala seja substituída por texto. Por telepatia sim, pois, neste
caso significaria uma evolução, e ainda assim eu sentiria falta do som da voz
das pessoas que eu amo. Todo mundo tem alguém cuja voz soa como música. Uma mãe
faz seu filho dormir cantando, usando a própria voz, bebês não dormem lendo
texto. Piadas contadas são mais engraçadas do que quando lidas. Sempre me
lembro, com um sorriso, de quando meus amigos vinham me CHAMAR pra brincar: “ô
Andréééé!” Já hoje recebo uma mensagem: “Tô na porta”, que retrocesso infeliz.
É do conhecimento de
muitos o episódio sobre o artista Michelangelo, que após esculpir a estátua que
representa Moisés, ficou tão maravilhado com sua própria obra, certamente devido
à semelhança com a criatura humana, que gritou: PARLA!
Sem mais.
André Aggi.
Sem mais.
André Aggi.


