Eu vejo você em mim.
Eu vejo você me observando, escondido em algum belo recôndito da grandeza do meu ser, como se este fosse o seu principal e único papel.
Eu sei que você gosta de ficar ora aqui ora ali, brincando comigo, tentando chamar a minha atenção, porém, sem fazer esforço, pois este não é da sua natureza. Você é filho da perfeição do infinito, logo, “esforço” é algo que você desconhece, não lhe faz sentido algum; e por isso você zomba de mim com carinho, quando me vê em meio ao pânico do afã de tentar chegar a lugares que não se chega. Pois, você sabe que não há fragmentações, não é mesmo? Isso é coisa dos personagens humanos. Menino, esses humanos! Vou te falar, eles inventam cada uma... Tempo, idade, religião, países, títulos, deuses, salas, clubes, castelos, profissões, organizações etc. Tudo com o intuito de separar, apenas.
“Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles”.
De uns tempos pra cá tenho prestado mais atenção em você. Quero te conhecer melhor, mas ainda não aprendi a falar sua língua, e sei que você não pode aprender a minha, sua dimensão o impede de se comunicar de maneira tão primitiva.
Mas não pense você que eu não noto as projeções físicas que você coloca em meu caminho, esperando que eu finalmente desista de resistir aos seus encantos; livros, filmes, situações, eventos, circunstâncias, sorrisos, brincadeiras e aquele calor no coração que vem do nada às vezes e te deixa sorrindo à toa sozinho. “Sozinho”... Outra invenção dos humanos. Nem sei te explicar o que eles querem ao certo dizer com isso, mas aquela em específico, além de nos separar, nos faz acreditar que estamos tristes por estarmos... sozinhos. Bem, deixa pra lá, você não precisa entender, e nem conseguiria.
Sabia que te chamam de muitas coisas por aqui? Deus, anjo da guarda, divindade, santo protetor, id, Jesus, estrela-guia, alma, criança interior etc. E não é só isso, além de te darem nomes engraçados, dizem que você está sempre fora, acima, no céu, no espaço, na quinta, sexta, sétima dimensão. E para completar, pegam você, lhe dão outro nome, e lhe usam como desculpa para justificar os atos e fatos mais escabrosos de que se tem - e não tem - ciência.
Eu sei que você habita em mim desde sempre até o insondável. Sei também, que um “dia” nós fomos bastante próximos, mais do que íntimos. Fomos de uma proximidade tal, que os personagens humanos não são capazes de compreender ou sequer imaginar. Mas será que ainda não somos? O que se perdeu?
Posso sentir você rindo com carinho destas perguntas neste exato momento. Tudo bem, eu sou novo nisso e preciso aprender, preciso me lembrar. E pra isso preciso ser, somente. Parar de agir, de ciscar, de tentar voar com uma asa só, de correr atrás da minha cauda. O carrossel é - sem dúvida - divertido, colorido e toca música, mas até que ponto?
“O caminho é uma constante não-ação que nada deixa por realizar”.
(Tao Te Ching)
Veja, você continua ai, e isto me conforta (e me irrita muitas vezes), esta sua “teimosia” em me lembrar quem nós somos - eu e você (completos).
Hoje conheço do inventário dos momentos em que estivemos juntos novamente, e eu não fazia ideia de que aquilo era na verdade a sua iminência. Todas aquelas vezes em que parei de lutar, de resistir, de me preocupar, de “dar murro em ponta de faca”, de “nadar contra a corrente”, eu criei um ambiente mais propício para que você chegasse até a mim, e assim, entendi nosso nobre ofício. E enquanto isso, aqui fora, as coisas - que são apenas coisas - se encaixaram na mais perfeita e divina ordem, sem “como”, “porquê” nem “quando”. Ai eu percebi também – e ao contrário do que imaginei – que seu papel não é apenas me observar, mas sim observar ATRAVÉS de mim, em mim, dentro e fora, crescendo, pulsando, ganhando força na mesma proporção em que permito; a ponto de inundar o que eu sou (você) e por fim transbordar, fazendo florescer a ideia original, e cumprindo o inevitável.
“A mecânica quântica calcula apenas possibilidades. Quem ou que escolhe entre essas possibilidades para trazer o evento real da experiência? A consciência deve estar envolvida. O observador não pode ser ignorado”.
(Amit Goswami em “Quem Somos Nós?”)
Vê? Que magia é essa de indescritível beleza, que as palavras não explicam e a matemática não calcula?
Não sei, o saber é lógico. Pobres os que, ao tentar entender, deixam de sentir. E se perdem de si mesmos.
Eu vejo você ai e aqui. Você, força motriz, com seus vários nomes, seu brilho eterno e indestrutível nos olhos, seu amor infinito. Vejo você, que contém o universo e além dentro de si, animando cada átomo do meu corpo, me curando, dando vida aos meus sonhos, colorindo o planeta e a própria vida. Eu vejo você, André. Você me assombra e me fascina, e por mais que eu lute contra, me atrai irresistivelmente para a dimensão do que eu sou. Meu maior segredo e fonte do meu maior poder, cuja negação se traduz na minha maior fraqueza.
A resposta, a causa, o sentido, o motivo, a luz, a solução, a essência; todos encerrados e contidos em: você.
As estrelas não brilham se você não olhar pra elas. Percebe?
André Aggi.


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