sábado, 28 de maio de 2016

Alô?

Não sabemos que rumo a comunicação interpessoal – próxima e à distância - vai tomar a curto e a longo prazo, mas será muito difícil me adaptar ao que tem se visto por aí.

Eu sou do tempo em que as pessoas sem qualquer tipo de deficiência vocal e/ou auditiva usavam suas vozes para se comunicar umas com as outras, mas este tipo de comunicação está minguando.

E a principal (há outras) figura que está assumindo o papel das cordas vocais se chama WhatsApp. O negócio apita a todo momento, sinalizando que há ali uma(s) solicitação(s) de comunicação. Você então abre o aplicativo, verifica quem é o interlocutor em questão, e corresponde ao chamado. Até aí TUDO BEM, tudo ótimo! Mas de repente você nota que não se trata de uma comunicação banal, não se trata de um: “Oi tudo bem? Pode FALAR?” Ao que você responde: “Sim, posso.”

Não!

Minutos depois você está participando, na verdade, de uma deliberação de assembleia, de um sermão da montanha, de uma análise da expressão de RNAs não codificadores longos em adenocarcinoma de pâncreas! Como se diz aqui em Minas: “Crendeuspai!”




Vejam bem, talvez o negócio aqui seja mais uma "implicância" minha (das muitas que tenho), seja mais uma questão pessoal. Eu tenho 1,98m de altura, logo, minhas mãos e meus dedos são proporcionais a esta medida. É difícil para mim, é como se fosse uma prova de gincana segurar esse aparelhinho na mão e tocar em quadradinhos individuais com uma área de 7 por 5 MILÍMETROS cada, a fim de transmitir uma ideia! As pessoas chamam isso de “digitar”, desculpem-me, mas “digitar” é o que você faz apertando botões ou teclas visíveis a olho nu! ISTO é digitar. Touch Screen está mais para um “carinho”, uma “cosquinha”. E discutir a origem do universo fazendo cosquinha numa telinha de um aparelhinho é INSANO!

Aí vem um gênio, um Steve Jobs ou um Bill Gates da vida e sugere:
- Tem uma solução pra isso! Baixe um teclado com “teclas” maiores!
(Tipo: “seus problemas acabaram!”)

Eu já tentei, mas não melhorou muita coisa, e logo em seguida me lembrei: Mas peraí! A questão NÃO é esta! Não é um “teclado” maior. A questão é que eu ainda consigo usar minha voz. O próprio WhatsApp oferece a opção “mensagem de voz” e até mesmo “chamada”. Mas não! Vamos ser impessoais? Vamos TECLAR? Teclar é legal, teclar é seguro, teclar é privacidade, você não precisa ouvir minha voz, você não precisa saber que estou teclando com você e fazendo outras mil coisas ao mesmo tempo, e às vezes não estou nem aí para o que você está "falando", só estou com tédio e quero ocupar minhas mãos.

Teclar é tendência, teclar é “in”, é sim, INsuportável.

Falar ao telefone até meus 20 anos de idade era artigo de luxo, era caro, muito caro, qualquer pessoa com mais de 30 anos de idade deve se lembrar. Mas o negócio mudou! Como é do conhecimento de todo mundo, o próprio aplicativo em questão oferece o “serviço” de chamada de VOZ... DE GRAÇA! Hein? Vamos usar? Está certo que a qualidade da chamada nem sempre é lá essas coisas, mas oi? É de graça!




Está valendo tudo pelo Whats: começo de namoro, oficialização de namoro, D.R., término de namoro, negócios, entrevista de emprego, contratação, demissão, exposição de arte, curso de mandarim etc.

Eu me pego constantemente na seguinte situação:

Interlocutor: Oi
Eu: Oi
Interlocutor: Bem?
Eu: Bão
Interlocutor: Vai sair hoje?
Eu: Acho que não e você?
Interlocutor: Eu queria, mas tem o lance lá...
Eu: Que lance?
Interlocutor: [TEXTÃO]
Eu: Hum...
Interlocutor: [TEXTÃO] (Digitando...) [Texto] (Digitando...) [Textinho]
Eu: Nossa, sério? Vc tá podendo falar? Posso te ligar?
Interlocutor: Posso sim... (Digitando ETERNAMENTE...) [TEXTÃO] (Digitando...) [Textinho] O que você acha?
Eu: Foda... Então, Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...

A partir DESTE momento, há múltiplos desfechos possíveis para este episódio:

1.
Eu: Foda... Então, Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: Então... Tô de saída aqui, depois nos falamos então...

2.
Eu: Foda... Então, Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: (Digitando...) ... (Digitando...) ... (Digitan... Sim

3.
Eu: Foda... Então, Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: (Pausa fria e sinistra, denotando má-vontade) Pode...

4. 
Eu: Foda... Então, Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: (Online) (Online) (Online) (visto por último hoje às 23:14)

5.
Eu: Foda... Então, Fulano, quer me ligar? Se estiver sem crédito eu te ligo...
Interlocutor: Não dá, tá todo mundo dormindo aqui

É um desrespeito, é um desprezo abominável com um dos dons mais lindos e ricos que o ser humano possui: o da fala, e tudo que ela traz: o timbre de voz, a melodia do que é dito, a emoção no que é dito, a entonação! Que falta faz a entonação do que se é dito, que fonte rica de desentendimento é a ausência de entonação. Esta poderia ser compensada com uma redação apropriada, com o uso correto da vírgula (a vírgula parece não ser coisa de Deus para a alguns) e da devida pontuação, mas todos nós sabemos que uma boa redação em nossa língua não é o forte da maioria dos brasileiros.
  
O que tem se visto é que filhos mudos do WhatsApp usam o aplicativo para se comportar de uma maneira que pessoalmente, ou até mesmo por telefone, seria inaceitável.

Imagina você chegar a um conhecido e dizer: “Oi, tudo bem?” e o conhecido olhar para a sua cara, dar as costas e sair andando. Educado? Pois é, é exatamente o que acontece quando você manda uma mensagem para alguém, a pessoa lê (porque o negocinho azul está lá), mas deliberadamente não responde! Não, meus caros, este não é um comportamento adequado quando se está cara a cara com alguém, no entanto é assim que os filhos mudos do WhatsApp se comportam, talvez porque se sintam seguros e protegidos por trás de uma tela de smartphone e, sendo assim, vale tudo. Vocês notam a bravura e a valentia do que se diz no WhatsApp? E por pessoas que não são tão valentes pessoalmente?

Concordo que a questão do negocinho azul que indica se a mensagem foi lida, ou não, pode falhar, pode ser uma falha tecnológica, ou não! E aí?

Alguns astutos e fanfarrões vão mais longe, eles desabilitam a confirmação de leitura das mensagens, RÁ! Te peguei! Agora sou livre para ignorar qualquer mensagem, de qualquer pessoa, de qualquer galáxia ad eternum. Mas este foi um recurso criado pelo aplicativo para dar aos usuários espertalhões o benefício da dúvida, e todos são inocentes até que se prove o contrário. Já imaginaram um recurso assim em uma comunicação ao vivo? Você me diz algo, mas não tem como saber se eu ouvi porque meus olhos não ficaram azuis. Eita que loucura!



O manuscrito parece estar condenado à extinção, o que faz lá um certo sentido, apesar de eu não ser a favor ou defender tal extinção. Mas a fala, esta não. Não consigo imaginar um mundo onde a fala seja substituída por texto. Por telepatia sim, pois, neste caso significaria uma evolução, e ainda assim eu sentiria falta do som da voz das pessoas que eu amo. Todo mundo tem alguém cuja voz soa como música. Uma mãe faz seu filho dormir cantando, usando a própria voz, bebês não dormem lendo texto. Piadas contadas são mais engraçadas do que quando lidas. Sempre me lembro, com um sorriso, de quando meus amigos vinham me CHAMAR pra brincar: “ô Andréééé!” Já hoje recebo uma mensagem: “Tô na porta”, que retrocesso infeliz.

É do conhecimento de muitos o episódio sobre o artista Michelangelo, que após esculpir a estátua que representa Moisés, ficou tão maravilhado com sua própria obra, certamente devido à semelhança com a criatura humana, que gritou: PARLA!

Sem mais.


André Aggi.

5 comentários:

Consuelo Guttierrez disse...

Vai escrever bem assim lá na casa do c@$%*&!!! <3

L. B. disse...

Poxa, André. A comunicação vai se adaptando como reflexo das relações sociais. Perceba: na época que trocávamos cartas com alguém, a atividade se dava justamente porque a distância era tão sentida que impossibilitava contato maior, então, o simples pensamento de que o outro havia tocado aquele pedaço de papel e depositado afeto dentro do envelope bastava para desencadear emoções. A globalização e o acesso a serviços tecnológicos marcaram a transformação dessa espera resignada e dorzinha que era um misto gostoso de saudade e expectativa em ansiedade e desespero quando não se consegue manusear algum aparelho móvel ou não há uma resposta imediata às mensagens enviadas. Principalmente na sua geração, digo. Foi assim com o computador e é hoje com o celular. Essa nova geração nasceu em um período individualista e aprendeu a se comunicar e relacionar de maneiras diferentes da sua. Quem envia textões, está se expressando. Quem recebe e não responde, talvez o faça por razões que façam sentido a quem está alinhado à mesma linguagem. Tanto é questão de hábito que você consegue interpretar as pausas do interlocutor. A própria comparação sobre simplesmente ignorar alguém durante um diálogo não é hipótese, acontece. Na verdade, ao terminar de esculpir Moisés, Michelangelo questionou: Per ché non par li? Percebe? Ele não estava exigindo a língua falada, ele queria uma resposta do fenômeno à sua frente. Falar não necessariamente significa comunicar, pode ser, inclusive, uma forma de evitar o vazio e silêncio de escutar a si mesmo. Enfim.

L.B. disse...

Esqueci de revisar o comentário antes de enviar, hehehe. Não foque muito em concordância e pontuação, ok?

André Aggi disse...

Olá, L.B.! Tudo bem?

Meu caro, eu concordo com praticamente tudo o que você falou, e que por sinal, foi muito bem colocado. Você apenas analisou o mesmo assunto de um outro ponto de vista (e há infinitos), mas ao fazer isto, você mudou alguns contextos. Vamos lá, no texto eu me coloco na situação sobre a qual eu disserto, e isto fica claro quando eu digo: “(...) mas será muito difícil me adaptar ao que tem se visto por aí”. E “Eu sou do tempo em que (…)”, então note que aponto mais para um problema de adaptação, e sugiro a pessoalidade da minha opinião e também da de algumas pessoas da minha geração e do meu círculo de convivência.

Você relaciona comunicação e relações sociais, e compara a exacerbada (de acordo com o meu texto) troca de mensagens contemporânea com a necessidade (sem saída) de outrora, a impossibilidade de um “contato maior”. O que seria um contato maior hoje em dia? Na minha modesta opinião, a voz é um “contato maior” que a escrita, não acha? Peço que você responda esta pergunta objetivamente.

Eu acredito em energia e vibração. Diversas formas de comunicação tem respectivas diversas formas de vibração, certo? A vibração do som (da voz) está - acredito - há muitos níveis de vibração acima à da escrita. Ambas desencadeiam emoções, isto é certo, mas daí fugimos da proposta do post, que é dizer que a voz é mais pessoal que a escrita, ambas demonstram a identidade única de cada um (a escrita não tanto como a voz), em quantas “vozes” pode se ler um texto? Em quantas entonações? Posso cantar um texto, posso gritar, posso sussurrar etc. Não consigo deixar de achar que o som é superior à palavra escrita, assim como não consigo deixar de achar que a imagem é superior ao som (mas neste caso, é porque eu sou uma pessoa visual, assim como há pessoas auditivas ou sinestésicas). Agora quantas palavras escritas são necessárias para se descrever um som? Em quantos textos pode se “dizer” uma voz? A própria pergunta - apesar de poética - não faz muito sentido.

Uma professora de português, no passado, nos ensinou sobre o poder da entonação certa vez, usando a seguinte frase (não me lembro exatamente a frase, mas a proposta é extamente a que se segue):

“Eu não disse que ele roubou o dinheiro.”

Esta frase, escrita exatamente como acima, é uma coisa, agora, o interlocutor pode ter desejado comunicar pelo menos seis coisas diferentes com ela:

“EU não disse que ele roubou o dinheiro” (outra pessoa disse).

“Eu NÃO disse que ele roubou o dinheiro” (ideia original de negação).

“Eu não DISSE que ele roubou dinheiro” (eu não disse, eu escrevi, eu pensei, eu sugeri).

“Eu não disse que ELE roubou o dinheiro” (foi ela, eles, nós, o PT, o PSDB).

“Eu não disse que ele ROUBOU o dinheiro” (ele pegou emprestado, ele escondeu).

“Eu não disse que ele roubou o DINHEIRO” (ele roubou outra coisa).

E vou me arriscar a ir um pouco mais longe:

“Eu não disse que ele roubou O dinheiro”, o artigo definido denotando qualidade e/ou quantidade, “O dinheiro”: uma quantia elevada; “O dinheiro”: o dinheiro honesto. “Ele comprou O carro”: o melhor carro. “Aquela casa é A casa”, etc.

Aí você pode me dizer que a interpretação correta é facilmente atingida através do uso de negrito, itálico, sublinhado etc. E no WhatsApp, através do uso de letras maiúsculas. Correto! Mas daí não tem como negar que na rapidez e o exagero com a qual e com o qual as pessoas se comunicam pelo aplicativo, isto é impraticável, embora não seja impossível. Isto é fundamentado quando eu digo que: “mas todos nós sabemos que uma boa redação em nossa língua não é o forte da maioria dos brasileiros”, quando eu digo que “não é o forte”, a não-generalização é clara. E acho que este fato não necessita de provas, mas caso seja necessário, basta você consultar os rankings mundiais de educação e verificar a colocação do Brasil.

André Aggi disse...

Eu sou um fã incondicional da tecnologia, L.B., um entusiasta do quanto ela melhorou nossas vidas, encurtou distâncias e elevou a humanidade a um patamar incrível. Por um outro lado, o mal-uso ou o uso exagerado e/ou indevido dela cria diversos outros problemas que não estavam “no mapa”.

Eu nasci em 1976. Peguei uma parte boa de toda a transição do “mundo sem” para o “mundo com internet”. Morei nos EUA em 1996 e me comunicava com amigos e famílias por carta. Mas quando eu tinha grana para ouvir a voz da minha mãe, eu chorava de emoção após desligar o telefone. Quando ligava para um amigo, gritávamos em histeria, eu lá e eles cá, entende como se trata de níveis de vibração? E se 1996 fosse hoje, ah meu caro, eu usaria mais o recurso de voz. Mas aqui estou eu falando de um contexto em específico: a distância, o mesmo contexto que você usou.

No meu post eu falo sobre tantos outros, como receber um Whats de um amigo no portão da minha casa: “tô aqui fora”, continuo achando triste ENQUANTO ele puder gritar. Mas suponhamos que seja madrugada, e minha família não pode ser acordada e os vizinhos não podem ser incomodados, aí sim, SALVE o WhatsApp! Porque antigamente tinha que ser pedrinha na janela.

“A significação das palavras não é fixa, nem estática. Por meio da imaginação criadora do homem, as palavras podem ter seu significado ampliado, deixando de representar apenas a ideia original (básica e objetiva). Assim, frequentemente remetem-nos a novos conceitos por meio de associações, dependendo de sua colocação numa determinada frase.”
(Fonte: http://www.soportugues.com.br/secoes/estil/estil1.php )

No meu texto eu não estou malhando a escrita, meu caro. Quem sou eu?! Eu, que amo ler!

Refiro-me ao EXAGERADO uso do WhatsApp em DETRIMENTO da fala, ISTO era o que eu tinha em mente ao escrever o texto.

Quanto ao que você diz sobre ignorar alguém durante um diálogo, claro que acontece, mas NÃO DA MANEIRA humorística que eu coloquei, pelo menos nunca aconteceu comigo, e caso tivesse acontecido, eu imaginaria duas saídas:

a) PUTA falta de educação.
b) Fulano está com problema.

Neste ponto discordamos mesmo, pois, acho que a tecnologia e seu uso tem que se adaptar às relações humanas, e não o contrário, desligar o telefone sem se despedir não continua sendo falta de educação? Bem, no meu círculo sim.

Eu vou manter minha posição ao defender que CERTAS coisas devem ser faladas, L.B. Por exemplo, quem termina um namoro por WhatsApp certamente tem uma bateria de lítio no peito ao invés de um coração de tecido humano que pulsa e te mantem vivo.

E quanto ao que você disse em: “

Falar não necessariamente significa comunicar, pode ser, inclusive, uma forma de evitar o vazio e silêncio de escutar a si mesmo”.

Meu caro, esta é uma OUTRA história, foge do tema ao qual me propus no post, e rende muito pano pra manga, hahahaha...

Agradeço – de coração – a sua correção em relação ao episódio do Michelangelo. Não sou muito fã de italiano, mas acredito que a tradução seja: “por que não fala?” É isso?

Bem, se for este o caso, meu ponto se mantem, pois, ele disse: “Por que não FALA?” e não “Por que não TECLA?” ou “Por que não ESCREVE?”

Não se preocupe VOCÊ ao me advertir sobre sua pontuação e concordância, você escreve muito bem, e se comunicou lindamente.

Agradeço sua leitura, sua visita e sua opinião, volte sempre, meu caro. Você é bem-vindo.

Um grande abraço!